"Desemprego sobe 104 por cento no Algarve" dizia ontem a manchete do Jornal de Notícias. Um disparate neste manchete.
Disparate:
Comentar variações de taxas (ou neste caso os casos extremos do mercado de trabalho) em percentagem, serve apenas os propósitos do sensacionalismo. O que deve ser usado são pontos percentuais (ou neste caso número de novos desempregados ou % da população activa que passou ao desemprego).
Um exemplo: país A e B têm 1000 trabalhadores, o A passou de 1 para 3 desempregados, o B de 10 para 15. Acho que todos concordamos que o agravamento foi pior no país B, mas segundo a bitola do JN, o país A triplicou (!!) o desemprego e o país B apenas teve um aumento de 50%. Segundo a bitola mais apropriada, o país A piorou 0,2pp (ou 0,2% dos trabalhadores passaram para o desemprego) e o país B piorou 0,5pp (ou 0,5% passou para o desemprego).
E com este post mudo-m para um blogue aqui ao lado que criei por já estar farto de escrever aqui. Corrigir os disparates e as mentiras da imprensa apenas mostram uma pequena fracção do sensacionalismo e miserabilismo que vai por aí. Mesmo que esta manchete não tivesse um disparate, ela seria na mesma sensacionalista. Das dezenas ou centenas de estatísticas que há em cada relatório, é escolhida a pior de todas para a manchete. O único critério para as manchetes é apenas esse, escolher o pior possível, não fazer um retrato verdadeiro da realidade (obviamente que ele é negro, longe de mim de afirmar o contrário!). Por que foi escolhido o Algarve e não o Norte? Por que foi escolhida a variação anual e não a mensal? Por que foi escolhido o número de desempregados e não as ofertas de emprego ou número de empregados? Etc. Muitas escolhas até podem ser acertadas, mas não foi por essa razão que foram feitas. O 104% era pura e simplesmente o pior que lá estava.
Decidi fazer exactamente o oposto. Escolher a melhor notícia de cada relatório. Obviamente que vou dar uma visão deturpada da realidade (admito-o frontalmente, algo que ninguém faz), mas se o pior dos piores é aceite como informação válida, porque não poderá ser o melhor dos melhores? Uma coisa é certa, dá-me muito menos trabalho que o A Pente-Fino.
No blogue Fado Positivo, apresentação aqui.
Pudera, tem muito mais gente!!
O raciocínio é demasiado complexo para o Expresso e o Diário Digital que têm esta pérolas:
Portugal: 5º maior défice comercial da UE
Zona Euro: Portugal regista 5º défice comercial mais alto
com a agravante do Diário Digital não saber contar (Portugal está em 4º) ou achar que o Reino Unido faz parte da zona Euro. Ter o 5º maior défice comercial nada nos informa sobre o estado do dito cujo, porque é preciso compará-lo com o PIB de cada país. Tal como é preciso comparar o número de criminosos com o tamanho da população.
A situação é melhor ou pior do que aquilo que os títulos dão a entender? Não sei, não vi os dados, e quem é suposto informar-nos também não.
O blogue está cheio da habitual confusão entre fluxo e stock, posição e velocidade, alteração e nível.
Quando o desemprego está alto, isso não implica que tenha havido uma grande subida. Pode passar de 10% para 10.1%. Subida mínima.
Quando há uma grande subida, não implica que o desemprego esteja alto. Pode subir de 2% para 4%, mas 4% ainda é baixo.
Parece claro não parece?
Não para o Diário Digital:
A CGTP defendeu hoje que o aumento da taxa de desemprego no segundo trimestre levou o desemprego ao «o valor mais elevado registado desde o 25 de Abril» em Portugal.
Salários com menor subida em 5 anos diz a Catarina Almeida Pereira ndo DN. Quando se abre a suposta fonte da notícia, um relatório governamental, vê-se que os últimos dados representam a maior subida em 3 anos (dados semestrais)!
O que fez a Catarina então? Olhou para as subidas nominais, ou seja sem contar com a variação de preços! Pessoalmente eu não como notas de euros, como comida (devo ser só eu), logo estou interessado em saber se posso comprar mais ou menos, não se tenho mais ou menos notas no bolso. E aqui houve o maior aumento dos últimos 3 anos.
Sobre o número de desempregados sem direito a subsídio de desemprego (por terem um curto período de descontos) o Público tem esta brilhante análise de João Ramos de Almeida:
Esta realidade dá, por outro lado, indícios da estrutura do mercado de trabalho. Tem direito a subsídio de desemprego quem tenha feito 450 dias de descontos nos últimos dois anos anteriores ao desemprego. Já para receber o subsídio social de desemprego é obrigatório ter feito mais de 180 dias de descontos.
Se o desemprego começou a afectar cada vez mais trabalhadores sem direito a subsídio de desemprego ou mesmo a subsídio social é porque parte considerável do mercado de trabalho não possui esses períodos de descontos. Seja porque se torna cada vez mais difícil encontrar empregos com prazos prolongados de desconto e os contratos a prazo não permitem aceder ao subsídio; ou porque formalmente não têm qualquer tipo de contrato, como é o caso dos "falsos recibos verdes".
Ponham-se na cabeça de um patrão que tem que despedir gente durante um mau período. Despedem quem tem contrato sem termo ou quem tem contrato a prazo/recibos verdes? Obviamente a segunda categoria, porque é mais fácil despedir. Logo num momento de crise é de esperar que este tipo de trabalhadores (os que depois podem não receber subsídio) sejam mais despedidos que os outros. Logo haverá mais deles à procura de desemprego.
Por isso, para ter este resultado não é minimamente necessário haver muita gente com ligações precárias ao contrário do que o jornalista nos quer fazer crer. Em vez de verificar os dados o João Ramos de Almeida tira umas conclusões ao estilo conversa de café.
E agora toca de mandar umas postas de pescada sobre a conclusão infundada. Se há muita gente com contratos precários, é porque é difícil encontrar dos outros. Conclusão paralela, mas igualmente errada pelas mesmas razões de cima.
E mais outra! Outra hipótese de haver gente sem subsídio é devido aos falsos recibos verdes. E os verdadeiros recibos verdes? Como é que o João Ramos de Almeida sabe se os que procuram emprego vêm de uns ou de outros?
Como sempre eu também não verifiquei os dados, é até possível que as três afirmações (sem encadeamento lógico) estão correctas. Mas não há ali nada que as legitime.
Duas mulheres tentaram casar-se e isto foi-lhes negado. Depois de vários processos em tribunal, foi pedido que o Tribunal Constitucional declarasse a inconstitucionalidade da definição de casamento no código civil (que exige sexos diferentes). Este pedido em concreto foi rejeitado. Por outras palavras o TC disse que a exclusividade heterossexual do casamento é constitucional.
Todos os Lisboetas são Portugueses, mas isso não implica que quem não seja Lisboeta não possa ser Português! Os Portuenses também o são. E os habitantes de Olivença? Não sabemos, porque ninguém perguntou isso ao TC.
Ou seja, o casamento homossexual também pode ser constitucional. Nunca foi isso que esteve em causa.
O CM diz TC chumba casamento gay, o Público diz Tribunal Constitucional diz não ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, o Diário Económico diz Tribunal Constitucional chumba casamento entre homossexuais, etc. Tudo disparates.
Sabe o que significa Número de desempregados cresceu 28 por cento em Junho lá para os lados do Público? Pensava eu que "em Julho" quereria dizer "no mês de Julho", "ao longo de Julho", "durante Julho", que ingenuidade.
É que segundo os dados do IEFP (a suposta fonte da notícia) o aumento ao do número de desempregados ao longo de Julho foi de 0,1%. Mas de 0,1% para 28% ainda vai uma grande diferença... acho eu.
A Renascença diz que Portugal é dos que paga mais pela electricidade...
Na suposta fonte da notícia vemos que o preço médio da Electricidade doméstica é 17,73€ na UE27, 17,26€ na Zona Euro e somente 15,25€ em Portugal. O facto de estarmos na metade de baixo da tabela (16 países com preços mais caros) não parece sensibilizar a RR.
E já nem falo da electricidade industrial, onde o disparate seria ainda maior.
Portugal tem a sexta taxa de desemprego mais elevada da OCDE diz o Público. O facto de faltarem estatísticas de 8 países, e de a França ter o mesmo valor que Portugal, não parece sensibilizar o Público.
Por outro palavras este título está tão perto da realidade como estaria o seguinte "Portugal tem a 15ª taxa de desemprego mais elevada da OCDE".
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