Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

O que fica: "Fátima e idosos universitários" ou "viagem acaba em tragédia"?

Em análises estritamente financeiras tenta-se calcular o valor da vida, o valor de diferentes vidas. E as vidas, em análises estritamente financeiras, têm valores diferentes.

Na primeira página de hoje o DN tenta, de uma forma muito retorcida e falhada, fazer esse exercício com o seguinte título em letras garrafais: “Viagem a Fátima de idosos universitários acaba em tragédia”. Tentativa falhada porque tenta produzir sentimentos primários de pena e compaixão como que para justificar que algumas vidas têm mais valor que outras. Qualquer coisa como: “se for verdade que ninguém merece morrer, uns merecem morrer ainda menos”.

O acidente na A23, no sentido Sul-Norte, deu-se com um ligeiro e um autocarro, cujos passageiros eram idosos que regressavam a casa. Ou seja, a viagem era já de regresso, e portanto não no sentido de Fátima. Mais que isso, a viagem, isto é, a viagem anterior, havia sido a Fátima, mas também, ao que parece, à Nazaré. Qual a intenção de enfatizar “Fátima”? O que se pretende fazer sub-repticiamente? Não é descarnado a que códigos de valores, a que referências da matriz sócio-cultural portuguesa se está aqui a apelar? E qual a intenção de referir idosos universitários? Era (ou é) essa a essência que caracterizava (ou caracteriza) aqueles idosos? E se fossem jovens universitários? E se fossem jovens empregados em consultoras? E se fossem idosos reformados que não tivessem decidido estudar?

O ponto é: a emoção não deve poluir o que é (deve ser) informação objectiva ou serviço público. Uma viagem acabou numa tragédia de dimensão relativamente invulgar. E, a haver razões para averiguar as causas do acidente, apurar responsabilidades e eventualmente prevenir futuros acidentes, essas são (devem ser) independentes do valor particular das vidas em causa. Somente porque ocorreu num espaço que é público e, assim sendo, as vidas valem (devem valer) todas o mesmo.
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publicado por Carlos Lourenço às 13:22
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1 comentário:
De Ricardo S a 7 de Novembro de 2007 às 13:23
A Comunicação Social teve um autêntico orgasmo jornalístico com as entrevistas às vítimas (ainda nas camas dos hospitais) e na exploração máxima da desgraça.
Quase foi hilariante (senão estivéssemos perante um caso sério e trágico) a entrevista em directo ao responsável pelas autópsias. Só faltou transmitir em directo as mesmas para as televisões ficarem felizes!...
Cumprimentos.

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