Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

Acudam-me! Andam assassinos cá no bairro!

Segundo a estatística relevada no debate da RTP-N, Portugal foi o terceiro país da Europa onde a criminalidade mais violenta teve maior crescimento.

O que é que isto quer dizer se não se diz o ponto de que partimos? Se houve um crime violento no ano anterior e este ano houver cinco, o aumento foi de 400%.  Provavelmente seria a maior taxa de crescimento do crime violento no mundo, mas também seríamos o país mais seguro do mundo.

Os meios de comunicação, e em particular a televisão, adoram estatísticas: dão credibilidade- a matemática é uma coisa rigorosa! - e permitem condensar uma realidade, cuja natureza é sempre complexa, num mínimo de informação.

Situação ideal para os tempos em que não há tempo!

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publicado por Oscar Carvalho às 13:55
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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

Sensacionalismo a la Público

Desenvolvimento humano elevado: Portugal é o único a descer entre 70 países é o que se lê hoje na capa do Público num trabalho de Bárbara Wong.

1. Embora não esteja incorrecto, não deixa de ser curioso que só se pegue em 70 países e não na amostra toda. (Ver também 2.)
2. Aparentemente (o texto não é claro) está-se a comparar os números de 2005 (agora publicados) com os de 2000. Porquê 2000? Devem ter passado a tarde inteira a fazer combinações de grupos de países e anos a comparar até chegar à notícia mais bombástica. Ora isto não é sério. É sensacionalismo.
3. Quem lê o texto com atenção apercebe-se que afinal a comparação é absurda. Uma responsável do PNUD diz que o método de cálculo foi alterado este ano, logo não faz sentido comparar os valores porque medem coisas diferentes! É como comparar as estatísticas de goal average deste ano com os pontos no campeonato no ano passado.
4. Isabel Pereira, a referida responsável do PNUD, disse na TSF (provavelmente disse também ao Público, mas não dava jeito publicar) que se se usasse o método de cálculo deste ano com os valores do ano passado, então Portugal NÃO TERIA DESCIDO no índice.
5. Imediatamente depois das explicações de Isabel Pereira, que - sublinho - faz parte da equipa que fez o estudo, a jornalista por estupidez ou por arrogância decide contrariar esta explicação escrevendo "no entanto, em 2000 este índice era de 0,904 e é agora de 0,897".  "No entanto"??? Deve ser mesmo por estupidez.
6. O texto baralha constantemente duas alterações: o valor do índice e a posição no ranking.
7. Embora se dê importância à descida de uma posição, o texto nunca refere o quão volátil é este ranking (agravado pela alteração do cálculo). Por exemplo enquanto os EUA desceram 6 e a França subiu 6.

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publicado por Miguel Carvalho às 23:38
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2007

Escala

"PSP e GNR têm mais do dobro de investigadores do que a Judiciária" diz a capa do Público. Só me apetece perguntar "E então?". Não faz qualquer sentido comparar o número bruto de investigadores sem comparar as necessidades e as competências de cada polícia. Poderia acontecer que a melhor solução fosse haver 10 vezes menos (ou mais) inspectores na Judiciária. Sem qualquer uniformização, sem qualquer escala todos estas comparações são vazias. Agora a passagem da mensagem sensacionalista (de que a PJ é preterida) está passada.
Outros exemplos disparatados muito comuns:
Espanha tem muito mais empresas multinacionais / actores famosos / prémios científicos / pilotos de F1 que Portugal. Mas meus senhores, eles são quatro vezes mais. E a ideia implícita é sempre a mesma: somos uns pobrezinhos. Porque é que ninguém nunca compara com o Luxemburgo? Escala óbvia: população.
O Euro está acima da paridade com o Dólar. Mas o que é isto? O que é que o 1,00 tem de especial? E os japoneses, coitados, são paupérrimos, porque estão 100 vezes abaixo da "paridade". E os malteses podres de ricos, porque estão a mais do dobro da "paridade"! Escala óbvia: paridade dos poderes de compra.
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publicado por Miguel Carvalho às 09:29
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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Sempre a cortar

No Telejornal da RTP acabou de passar a tradicional peça das compras de Natal, em que se repete os mesmo lugares comuns de sempre. "Este ano tem que ser a cortar", "como o país está, tem que se gastar menos", "este ano vou gastar menos do que no passado", blá blá... A jornalista reforçava "cortar, cortar, cortar".
Não, não vou argumentar com estatísticas.
Basta lembrar que há décadas que todos os anos se ouve a mesma reportagem por esta altura, com os mesmos lamentos. Ou somos hoje mais pobre do que em 1900, ou isto é mais um caso de "bota-abaixismo" tão lusitano.
publicado por Miguel Carvalho às 20:15
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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

Torne-se milionário, assine um contrato temporário

"[Contratos de trabalho] temporários ganham mais", diz João Silvestre no título do seu artigo, no suplemento de economia do Expresso do último Sábado. Depois, no subtítulo, coloca algum rigor na coisa e admite que a afirmação do título só se aplica aos jovens. Mas é só algum. Mesmo entre estes, parece que essa diferença é de apenas 1% para os homens e 5% para as mulheres.

Pode argumentar-se que, embora pequenos, são estatisticamente significativos. Pois, com uma amostra daquelas, é muito provável que o sejam. Mas a questão é antes se são economicamente relevantes. E valores de 1 e 5%, e apenas para jovens, não justificam um título daqueles. Sobretudo quando depois nos diz que, para a generalidade das faixas etárias, o salário horário médio pago ao trabalhador com contrato temporário (3.36 euros) é cerca de 23% inferior! Leu bem: não é 1, nem 5, é mesmo 23%. E inferior. Pior, depois desta comparação, que não se refere apenas aos jovens, ainda se atreve a concluir que "Este resultado (...) contraria a ideia de que os trabalhadores temporários são mais mal pagos que nos restantes tipos de contratos". Hã?

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publicado por Pedro Bom às 22:30
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A brincar é que a gente se entende

Os jornais e os jornalistas entendem bem o poder do alarmismo. E o que acontece quando um lobby se junta a jornais e jornalistas sob a mesma lógica do alarmismo? Avanço com uma hipótese: uma grande confusão.
 
Vem isto a propósito de uma notícia da agência Lusa publicada hoje no Público online sobre a segurança dos brinquedos: “Estão à venda em todo o tipo de lojas – Maioria dos brinquedos testados pela Deco representa risco para as crianças”.
 
O parágrafo-chave, que alimenta toda a notícia é o seguinte: “Contrariando a ideia de que perigosos são os das lojas chinesas, a Deco comprou 30 brinquedos também em lojas da especialidade e hipermercados e descobriu que 18 eram perigosos, tendo concluído que nenhum tipo de espaço comercial dá garantias de segurança”.
 
Como se me bloqueia a prosa ante tamanho amontoado de disparates num só parágrafo, só consigo elencá-los por via esquemática, ponto por ponto:
 
1) Como é que se contrariou seja o que for?
 
Só porque se compraram 30 brinquedos TAMBÉM noutras lojas e 18 destes eram perigosos, contrariou-se que “os das lojas chinesas” não são perigosos? Afinal, desses 18, quantos foram adquiridos em lojas chinesas?
 
2) Não interessa o “onde”, mas sim o “quem”
 
Que interessa onde se vendem os brinquedos? Em última análise, os responsáveis serão os fabricantes. Assim como se se encontrar um prego numa lata de Coca-Cola, o responsável é, à partida, isto é, não tendo razões para suspeitar do contrário, o fabricante (a própria Coca-Cola), e não o Sr. Zé da mercearia lá do bairro onde a lata tenha sido vendida.
 
Tudo bem, a maior parte dos brinquedos é hoje fabricada na China. Mas o responsável não deixa de ser a empresa sob o nome da qual os brinquedos são fabricados, seja ela chinesa, portuguesa, ou do Zimbabué.
 
3) Maioria
 
Pois, de 30 brinquedos, bastava que 16 fossem considerados perigosos para já se poder falar de “maioria”. Resta saber se a Lusa daria o mesmo título à notícia, caso a Deco tivesse testado 3 brinquedos e 2 – a maioria – fossem considerados perigosos.
 
4) Representatividade
 
Obviamente, as conclusões dos testes da Deco aos brinquedos serão válidas para a população de brinquedos, a qual se subdivide num infindável número de estratos – idades para as quais estão indicados, para rapariga ou para rapaz, etc –, para a população de vendedores de brinquedos – hipermercados, lojas chinesas, lojas portuguesas, etc –, e/ou para a população de fabricantes, se os brinquedos testados representarem essas mesmas populações.
 
Ora, não é preciso estar com muitas coisas para perceber que 30 brinquedos ou 18 brinquedos – em suma, os resultados deste estudo –, provavelmente, não representam coisa nenhuma. Ou melhor, representam: aqueles 18 brinquedos em particular parecem ser perigosos e provavelmente devem ser retirados do mercado.
 
Não se percebe se o(a) jornalista cita ambiguamente a responsável técnica da Deco de forma intencional ou não quando escreve “mais de metade dos brinquedos comprados são perigosos”. Espero que se referisse às compras da Deco e não estivesse a sugerir que mais de metade dos brinquedos comprados em Portugal são perigosos. Este estudo não sustenta, e nem o poderia fazer pela forma como parece ter sido conduzido, tal sugestão.
 
5) O que é que é perigoso e de que crianças estamos a falar?
 
Sobre estes dois aspectos considero ser bastante referir apenas que num subtítulo da notícia se pode ler “Peças pequenas que se soltam”, e depois são dados exemplos de brinquedos inseguros...; e perguntar o seguinte: e é o mesmo estarmos a falar de crianças com meses de idade ou de crianças já com uns anitos?
 
Conclusão: pelo que vem sendo identificado neste e noutros blogs e noutras instâncias, parece ser claro que grande parte da falta de rigor e de conclusões abusivas em certo tipo de notícias publicadas pelos jornais nem é culpa, exclusivamente, dos jornalistas.
 
Notas (curiosas): 1) falta cerca de um mês para o Natal. 2) E, do nada, vem-me à cabeça uma questão: a melhor forma de defender os consumidores é atacando comerciantes?
publicado por Carlos Lourenço às 22:04
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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

E, quer me parecer, que não há duas sem três

Depois do Público, é hoje a vez do DN de continuar a saga sobre o relatório das Nações Unidas relativamente ao HIV/SIDA.
 
Além de repetir os mesmos erros já aqui descritos, o título da notícia, e o que se pode ler no texto – “No ano passado foram infectados por HIV seis portugueses por dia” –, além de ser 1) potencialmente irrelevante, 2) não é necessariamente verdade.
 
1) Potencialmente irrelevante porque depende do divisor. Isto é, a jornalista pegou no número de novas infecções com o HIV diagnosticadas em 2006 em Portugal, 2162, e dividiu pelo número de dias do ano, 365, o que dá 6 (infecções por dia). Como se ouve muitas vezes em relação ao número de crianças que em África morre de fome, se a jornalista dividisse por horas, o título seria “HIV infecta um quarto de português por hora”. Ou seja, soaria a nada. Mas o que lhe falhou foi não se lembrar de dividir pelo número de semanas. Seria bombástico: “HIV infecta 42 portugueses por semana!”
 
2) E não é necessariamente verdade pela nota escrita aqui e que aproveito para transcrever: “Seria ainda bom prestar atenção a alguns dos problemas relacionados com a obtenção de estatísticas relativas às infecções com o vírus HIV escritos neste último relatório [HIV/AIDS Surveillance in Europe]. Por exemplo, a taxa de incidência da infecção pode não coincidir com o número de novos casos diagnosticados em determinado ano, uma vez que a infecção pode ter ocorrido anos antes.”
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publicado por Carlos Lourenço às 13:06
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E também pode ser que ainda volte a chover

Nestas coisas das previsões económicas, muitas semelhanças existem com as previsões metereológicas (sem perda de generalidade, uma vez que o essencial é ter em conta as exigências estatísticas que assistem a qualquer ‘boa’ previsão). Assim, e na sequência do tema de uma notícia económica no DN de hoje e no que nela se pode ler (“tudo indica que o euro pode chegar, até ao final do ano, aos 1,50 dólares”), aplica-se novamente, com os devidos ajustes, este post.
 
Nota (pedido a quem me possa elucidar): já alguém estudou a origem das barreiras psicológicas na economia, do género 2% do PIB, taxa de câmbio Euro-USD de 1,50, etc, e o seu impacto efectivo na condução de política monetária, pública, etc? Correspondem efectivamente estes números a limites acima (ou abaixo) dos quais os efeitos se tornam particularmente dramáticos?
publicado por Carlos Lourenço às 09:32
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Terça-feira, 20 de Novembro de 2007

Ainda o emprego

A famosa notícia do Diário Económico, tem um subtítulo curioso: o desemprego continua a crescer entre os licenciados. É provavelmente desta frase que é retirada a notícia da SIC referida neste outro post.
Só que quem lê a notícia não encontra um único dado, nem fonte, nem sequer uma palavra que indique isto. O artigo trata apenas das estatísticas do emprego de "dirigentes e quadros superiores, profissionais intelectuais e científicos e técnicos de nível intermédio". Só se formos ingénuos é que confundimos estas classes profissionais com a classe dos licenciados. É muito provável haja alguma correlação positiva, mas haverá milhares de não-licenciados em quadros superiores, e milhares de licenciados em "vendedores" ou "pessoal administrativo".

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publicado por Miguel Carvalho às 18:29
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Criação LÍQUIDA de emprego

Quando se faz contas de mercearia é na maioria dos casos um perfeito disparate falar na criação e destruição de desemprego separadamente. O facto de terem desaparecido um milhão de empregos não é necessariamente muito grave se forem criados outros tantos. Por isso se fala na criação líquida de emprego, ou seja o total criado menos o total destruído. Depois há casos em que estamos interessados em pormenores da dinâmica do emprego, onde os valores brutos já são importantes.

Há dois dados sobre o emprego que têm dominado os últimos dias. A criação líquida de empregos desde o início da legislatura que foi de 106 mil empregos, e alteração da composição do emprego em Portugal onde houve um decréscimo líquido de 167 mil empregos mais qualificados (ler contudo o primeiro comentário deixado aqui). O primeiro é uma boa notícia de curto-prazo, que contudo não impede que haja mais desemprego (basta haver uma maior oferta de mão-de-obra). A segunda é uma má notícia de longo-prazo, porque só poderemos crescer solidamente com mais emprego qualificado.

Ontem no Fórum TSF o líder da JSD (não registei o nome do rapaz) em nome do PSD mete os pés pela mãos e acaba por fazer uma grande trapalhada. Dizia ele que não serve de nada haver mais 106 mil novos empregos, porque se perdemos 167, o resultado é menos 61 mil, ou seja é mais desemprego. Depois liga a cassete sobre as más opções do governo em termos de criação de emprego.
Primeiro os números não são brutos mas líquidos, logo já indicam o deve e o haver. Há mais 106 mil pessoas a trabalhar, ponto final. Há menos 167 mil empregos de maiores qualificações, ponto final.
Segundo a sua subtracção não faz qualquer sentido. Ao menos a sua soma, 273 mil, tem uma interpretação; indica a criação líquida de empregos de menores qualificações.
Terceiro ataca o governo na única coisa boa em termos de emprego de que o governo se pode orgulhar, isto é a criação líquida de emprego.
Quarto ao deixar de fora a variação do tipo de emprego, deixa de fora o essencial tanto do ponto de vista da qualidade do emprego como da sustentabilidade do nosso crescimento económico.

ADENDA: Hoje, 21 de Novembro, Paulo Portas volta a repetir este disparate. Aos 106 chama empregos criado e aos 167 chama empregos destruidos.
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publicado por Miguel Carvalho às 15:06
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