Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Uma vez TVI, sempre TVI

Eu muito raramente sigo a informação na TVI. Para lá das razões óbvias, há o problema do dia só ter 24 horas, o que não me dá tempo suficiente para escrever todos os posts que a TVI mereceria. Mas depois do entusiasmo de José Eduardo Moniz na entrevista ao Público de ontem sobre a recém-nascida TVI24, dei à TVI uma nova oportunidade.

Como não estou em casa, apenas vi a página online, onde a secção Economia tem como destaque:

 

Portugueses estão a trabalhar cada vez mais.

Produtividade cresceu 1,2% entre 2000 e 2006

 

Parece inacreditável, mas a TVI24 não percebe que uma coisa nada tem a ver com a outra.

 

Zé Eduardo amigo, aqui que ninguém nos ouve, eu explico:

O Afonso e o Bruno produzem trigo. O Afonso faz tudo à mão e o Bruno tem equipamento. O Afonso trabalha 10h em média, o Bruno apenas 6h. O Afonso produz 10 toneladas mas o Bruno com toda a mecanização produz 12. O Bruno tem uma produtividade maior (2 ton/h em vez de 1ton/h) mas quem é que trabalha mais?

(Resposta certa: o Afonso)

 

Por curiosidade, o relatório do INE informa que o total de horas trabalhadas no país têm vindo a diminuir constantemente desde 2002 (até 2006, o último ano em que há dados). Em termos individuais, a queda não é constante, mas há uma queda.

publicado por Miguel Carvalho às 16:22
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99,9% dos portugeses acreditam que um dia vão morrer

 

O Público veste hoje a capa negra da desgraça, disfarça-se de ceifador envergando a gadanha, e faz-me vomitar.
 
Escreve na capa sobre (1) o “medo” dos portugueses em relação ao desemprego, no interior do jornal (2) que os portugueses estão “assustados”, e em letras garrafais também no interior do jornal, a colossal barbaridade: (3) “À espera da maior subida do desemprego dos últimos 23 anos”.
 
Ora, não só aquele título prova cabalmente que as outras duas expressões são indevidas e puro sensacionalismo jornalístico – entre estar “à espera” e ter “medo” ou estar “assustado” vai uma grande distância, e, estou em crer, não são expressões equivalentes –, como o próprio título revela uma de duas coisas: ou um abuso do sentido da evidência, e portanto uma manipulação grosseira dos leitores, ou um erro indesculpável.
 
Excluo a segundo hipótese, porque considero que um jornalista não erra assim.
 
Há portanto aqui manipulação e sensacionalismo desmedido. A única coisa de que o jornalista nos fala na notícia, é de uma questão que foi colocada aos portugueses (assim como aos restantes habitantes da União Europeia) sobre as suas expectativas em relação à evolução do desemprego:
 
“Como é que espera que o número de pessoas desempregadas varie durante os próximos doze meses?”
 
O resultado do indicador é dado pela “contabilização de respostas que vão de ‘subida aguda’ até ‘descida aguda’”, e, em Portugal, este “foi de 78 pontos, num máximo de 100 pontos”.
 
Será então o mesmo dizer “que as expectativas em relação à evolução do desemprego estão no mínimo dos últimos 23 anos” ou dizer que se está “à espera da maior subida do desemprego dos últimos 23 anos”?
 
Não, não é a mesma coisa, é totalmente diferente.
 

Mas a ideia que fica é que os portugueses esperam o maior aumento do desemprego dos últimos 23 anos, e nada naquela questão permite concluí-lo.

 

Porque é que os jornais escrevem estas coisas, ultrapassa-me.

 

 

publicado por Carlos Lourenço às 10:20
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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

RR e BPP

DN de ontem:

1. Capa: "Accionistas de BPP terão de pagar perdas de clientes".

2. Título: "Accionistas podem ter de pagar".

3. Texto: apenas as declarações de Teixeira dos Santos do Estado sobre a não ingerência do Estado no que toca às fortunas privadas.

 

DN de hoje:

1. Capa: "Bens pessoais pagam perdas de clientes

2. Título: "Bens pessoais de gestores pagam perdas de clientes".

3. Texto: "João Rendeiro, ex-presidente do Banco Privado Português, BPP, e seis ex-administradores suspensos pelo Banco de Portu-gal [sic] na semana passada poderão responder com os seus bens pessoais pelas perdas de clientes, na sequência de queixas-crime apresentadas em tribunais."

 

E mais não preciso de dizer.

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publicado por Pedro Bom às 12:43
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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Falta de pudor

Desemprego dispara em Janeiro e atinge mais 70 mil pessoas insinua hoje em grande a capa do Público.

 

Da fonte da notícia, cujo próprio link está na página online do Público, lê-se:

O desemprego registado apresenta uma trajectória ascendente, apurando-se (...) relativamente ao mês anterior, o aumento foi de 7,7%, consequência de mais 31 961 desempregados inscritos.

 

Ou mais explícito ainda:

Desemprego registado

Dezembro 2008: 416 005

Janeiro 2009: 447 966

 

 

 

O Público não teve falta de pudor em brincar com as palavras. Os 70 mil do relatório são pessoas que se inscreveram como desempregadas, mas há apenas mais 32 mil pessoas no desemprego. Alguém interpretou o título do Público de modo correcto?

 

 

publicado por Miguel Carvalho às 12:23
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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Eu tenho cá uma ideia de quem deveria estar no desemprego...

Hoje na SIC e SICNotícias ouve-se os seguintes disparates (não é literal, mas a ideia era essa)

 

Número de desempregados aumentou 27,3% em relação a Janeiro de 2008

Na suposta fonte da notícia, um relatório do IEFP, lê-se que o número de desempregados  variou +12,1%. Habituado à confusão de muitos jornalistas entre stock e fluxo, imaginei que tivesse sido a variação do número de desempregados que aumentou 27,3%. Mas também não é, o relatório não tem dados que possam calcular essa variação. Os 27,3% referem-se sim à variação do número de novos trabalhadores inscritos como desempregados. O problema é que não há nenhuma relação directa entre este número e o número de desempregados. Pode haver um aumento do número de novas inscrições e o desemprego descer. (Não é o caso, claro! Mas mostra como se confunde coisas com pouca relação entre si)

 

Portugal ganhou 70 mil novos desempregados

Aqui o computador diz que 448 menos 416 dá 32, mas a SIC lá saberá onde inventou os 70.

(Adenda: reler este post e os comentários a ele para perceber o que quero dizer com este ponto)

 

Cada vez mais cursos deixam de ser garantia de trabalho

 

Quem lançou esta notícia foi o JN, onde se lê que há menos 4% (em número absoluto) de licenciados desempregados. Ora num clima de aumento de desemprego, a existência de menos licenciados desempregados a levar a alguma conclusão seria exactamente a oposta do que a SIC diz!

Os cursos que dão menos garantia de trabalho são Psicologia, Gestão, etc.

 

Há muito mais pobres nos EUA do que no Tuvalu, mas isso é porque o Tuvalu é pequeno, não é porque os norte-americanos tenham maior probabilidade de ser pobres. Se houver 5 médicos desempregados, e a licenciatura em Engenharia de Descascadores de Batatas tiver todos os seus 4 licenciados no desemprego, a SIC diria que a licenciatura em Medicina garante menos emprego... pois.

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publicado por Miguel Carvalho às 15:00
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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

Se não aconteceu, podia ter acontecido

O jornal humorístico 24 Horas, concorrente fraquinho do Inimigo Público de onde roubei o título do post, diz hoje na capa: Portugal é o país da Europa com maior taxa de homicídio. Relatório da ONU preocupante. O mais grave não é,

 

- deixar a ideia na capa de que se tratam de números actuais

- nem generalizar os dados de um ano só, quando eles são muitos voláteis (em 2006, o ano escolhido pelo 24 Horas, a taxa foi de 2,15 mas tinha sido 1,66 no ano anterior e terá sido algo como 1,6 no ano seguinte pelo que percebo do texto do jornal),

- nem "esquecer" que países como França, Bélgica, Luxemburgo, Hungria, Bulgária, Islândia etc. (salvo o erro são países europeus), não constam do relatório,

- nem "esquecer" que as definições jurídicas de homicídio, e logo as estatísticas em si, não são comparáveis entre países*.

 

O mais grave é haver vários países europeus (Bielorrússia, Estónia, Letónia, Lituânia, Mónaco) onde a taxa de homicídio foi mesmo maior do que a nossa no ano escolhido pelo 24 Horas. E isto não os impediu de escolherem o título que escolheram.

 

Depois há o SOL que faz copy-paste do 24 Horas sem se dar ao trabalho de verificar os dados. O Público além de se esquecer no título da França, Bélgica e Luxemburgo, deve julgar que o Mónaco é um país nas Caraíbas.

 

*Normalmente não faria esta crítica, porque o jornalista não é obrigado a saber este pormenor.  Normalmente diria que a tarefa do jornalista é apenas usar os números da fontes. Mas neste caso, é o próprio corpo da notícia que diz que os números não são comparáveis.

publicado por Miguel Carvalho às 19:27
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Ao comprar pastéis de camarão está a aumentar os impostos

"Governo promete aumento de impostos" diz o Correio da Manhã em letras gigantes.  A "conclusão" é baseada nas estimativas do peso da carga fiscal -que constam do PEC - que têm variações na ordem dos 0,1 e 0,2 pontos percentuais.

 

Primeiro de tudo é ridículo dar qualquer importância a variações deste tamanho, especialmente neste caso em que se trata de previsões. Segundo a notícia, a variação de 2007 para 2009 será de -1.5pp, o que mostra o quão insignificantes são aqueles valores.

 

Segundo, o CM "confunde" na capa - mas já não o faz no corpo do texto - carga fiscal com o nível dos impostos. Se eu este ano decidir comprar pastéis de camarão em vez de pastéis de vegetais, estou a pagar mais IVA (os primeiros têm um IVA maior), ou seja estou a aumentar a minha "carga fiscal". O que é que o Correio da Manhã vê ali? Uma alteração do consumo? Não, um aumento dos impostos!

Outro exemplo, se houver menos gente a fugir aos impostos, o CM não  vê nisso uma redução da fuga ao fisco, mas um aumento de impostos!

 

Por último, um apontamento tragicómico. As receitas fiscais dos impostos directos (em percentagem do PIB) vão ter - segundo o texto - o seguinte comportamento: 9,8%, 9,6% e 9,7%. Há ali primeiro uma redução e depois um aumento, metade da redução (ambos totalmente insiginificantes como já disse). O que é que o parágrafo introdutório diz? "[O PEC...] deixa claro que os impostos directos e indirectos vão aumentar nos próximos dois anos." Não interessa o comportamento geral, interessa é que lá pelo meio haja uma subida.

publicado por Miguel Carvalho às 11:42
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Um título, dois abusos

Diz-se aqui que os portugueses são "campeões europeus em portáteis". Primeiro, temos o abuso do costume: fala-se em campeões da Europa no título mas lemos mais umas linhas e percebemos que afinal apenas países da Europa Ocidental foram considerados no estudo (sem especificar quantos, mas podemos confirmar aqui que são apenas 16).

 

Segundo, e bem mais grave, temos a conclusão abusiva: os portugueses são campeões em portáteis não porque possuem ou compram mais portáteis (em termos absolutos ou per capita) do que os outros 15 países da Europa Ocidental (até podem ter, mas o artigo não o discute), mas simplesmente porque a proporção de portáteis no total de PCs é a maior (81%).

 

Imaginem agora o que teria escrito o Expresso se afinal um dos outros 15 países tivesse um mísero portátil para toda a população (100 por cento do tal de PCs, portanto): "portugueses vice-campeões europeus em portáteis". Pois...

publicado por Pedro Bom às 11:41
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Porque sim

Adenda:

Cometi o erro de assumir que o título do texto referido no post abaixo, se referia exclusivamente a esse texto. Não tendo tido a hipótese de verificar a versão física do jornal (apenas a online), não percebi que o título se referia sim a algo não disponível online. A autoria do "erro" que crítico no post não é assim do autor do texto, mas da composição da versão online do jornal.

As minhas desculpas pela crítica injusta. (Ver comentários)

 

Para um texto sobre previsões de diferentes analistas sobre os dados económicos do último trimestre de 2008, e onde não há uma única referência sobre o ano de 2009, Rudolfo Rebêlo escolhe hoje no DN o título:

FAMÍLIAS SEM DINHEIRO AGRAVAM CRISE EM 2009

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publicado por Miguel Carvalho às 11:29
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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Superhomens

Eu acho muita piada aos representantes de determinados sectores económicos, que sustentam que o seu sector representa não-sei-quantos porcento do PIB português. Fico sempre com a ideia que se somarmos os sectores todos, descobrimos que o nosso PIB deve ser semelhante ao alemão.

O disparate de hoje nem vem de alguém do sector, mas de alguém que tem como profissão "informar-nos" (não vale rir), um anónimo jornalista da Lusa. Diz ele que a Qimonda, com os seus 2 mil trabalhadores, contribui para 5% do PIB. Ou seja cada superhomem/colaborador da Qimonda produz tanto como 140 ou 150 trabalhadores portugueses médios. Eu acho é que eles têm lá duendes escondidos.

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publicado por Miguel Carvalho às 01:02
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