Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

Post longo, chato e atrasado

Este post ficou perdido durante um mês na página de edição do blog. Mas como os erros são intemporais, e ele já estava escrito, publico-o de qualquer modo.


O Público de 10/12/2007 publica uma espécie de análise económica sobre as exportações portuguesas. O texto da autoria de Miguel Pinto e José Rui Felizardo da Inteli tem direito a uma página à parte, com fundo de cor diferente, cheia de gráficos e com um ar de trabalho académico.
Só vou comentar alguns aspectos.

O primeiro gráfico que relaciona o rácio Exportações/Produção com o PIB per capita...
1. ...é curioso porque primeiro de tudo não sou capaz de o reproduzir. Pegando por exemplo na Hungria (o que está no canto superior esquerdo) os valores do Eurostat (a alegada fonte dos dados) são totalmente diferentes dos que estão no gráfico. O tal rácio é 61% e não os 27% ou 28% do gráfico.
2. Depois pega em apenas 14 países sem explicar porque escolheu estes e não outros. Ora escolher a nossa amostra não é minimamente sério num estudo. Escolhendo uma amostra que me desse jeito, eu facilmente poderia provar que os Miguéis de 1,72cm (como eu) são os homens mais inteligentes, bonitos e simpáticos do mundo.
3. Para chegar à "conclusão" que é retirada do gráfico ("valores de exportações mais altos estão associados a um Produto Interno Bruto (PIB) per capita mais elevado.") é desenhada uma bola à volta de alguns pontos, cuja inclinação parece indicar a tal conclusão. Ora uma bola é uma bola. O mínimo que se pediria seria uma regressão. E mesmo uma regressão só indica correlação e correlação não é causa. Já para não falar de várias outras variáveis que estão escondidas e que podem levar à alegada correlação.
4. Mais precisamente há duas bolas. Uma para países grandes e outras para pequenos. Nem sei o que comentar.
5. (Ligado ao 3 e 4) Eu facilmente arranjaria outros países cujas "bolas" teriam a inclinação inversa. E posso ficar pelos países ricos. Os EUA têm um rácio baixíssimo mas tem um PIB per capita altíssimo, e suponho que a Eslováquia tenha um rácio alto e um PIB per capita baixo.

No início é dito que os sectores exportadores têm um Valor Acrescentado Bruto (VAB) baixo comparado com o VAB total em Portugal. Ora no primeiro gráfico, o dos têxteis - importante sector exportador em Portugal, Portugal aparece em primeiro...

Nesse mesmo parágrafo em que se introduz o rácio VABsector/VABtotal e o estranho exportações sectoriais/VAB (presumo que VABsectorial, pelos valores elevados em alguns gráficos) diz-se que estes rácios questionam a ideia de Portugal ser uma economia significativamente aberta. Ora o primeiro rácio é apenas "interno", e o segundo não está propriamente relacionado com a abertura da economia, mas sim - e como os autores escrevem numa caixa - com a localização das empresas que comandam a cadeia de valor acrescentado.

A insistência neste rácio Exportações/VAB (que aparentemente deveria ser alto) também é um pouco estranha, exactamente por esta última razão. Temos por exemplo valores como 200% para a Dinamarca. Se a produção nacional for muito baixa (que deve ser o caso da Dinamarca) uma pequena variação nas exportações tem um enorme impacto neste rácio. Aliás, tanto Espanha como a Itália - com fortes sectores têxteis - têm valores ainda mais baixos que Portugal!

Chega. A única boa notícia é que aqui não temos títulos sensacionalistas que não são minimamente sustentados pelo texto... mas talvez isso se deva à ausência de conclusões....
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publicado por Miguel Carvalho às 18:44
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