Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

A parte pelo todo

O Expresso diz este sábado na capa que os "Profs perderam 12% do salário em 8 anos".  Não me dando ao trabalho de verificar os números, reparo em dois erros na análise.
  • Embora o título e o texto se refira à generalidade dos professores, nas letrinhas pequeninas no gráfico ficamos a saber que só foram verificados os professores em topo de carreira. Ora eu conseguiria facilmente encontrar 1000 portugueses que em 8 anos viram o seu salário duplicar, mas não seria sério concluir daí que os portugueses no seu todo tiveram uma duplicação. Aqui a escolha do escalão mais alto não é inocente. Tem sido política nos últimos anos dar aumentos percentuais maiores aos escalões mais baixos (o próprio texto o refere a propósito do congelamento de salários), logo o topo da carreira tem sido penalizado em relação à média. Não se pode portanto generalizar estes 12%.
  • Os valores em causa são do vencimento bruto. Eu continuo sem saber o que é o "poder de compra", mas salário bruto não é exactamente o que pensamos quando nos referimos a "poder de compra", que imagino estar mais associado ao salário líquido. E a diferença neste caso é importante, porque se houve aumentos de salários abaixo da inflação esperada e os escalões do IRS foram actualizados ao nível da inflação esperada, houve quem tenha saltado de escalão, resultando numa diminuição percentual menor do salário líquido do que do salário bruto - ou maior já que ao longo deste período houve várias mexidas nos escalões, nomeadamente a introdução de um escalão de 42%.
publicado por Miguel Carvalho às 19:31
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8 comentários:
De Nuno a 22 de Janeiro de 2008 às 12:12
Caro Miguel, aproveito a embalagem do comentário que fiz agora no post anterior para deixar aqui outro a propósito dos salários públicos.

Sobre as carreiras. Segundo sei, os salários da função pública têm uma estrutura indiciária o que quer dizer que, dentro da mesma carreira, têm evoluções proporcionais. Por isso, pode-se dizer que, percentualmente, perderam o mesmo. Claro que haverá casos individuais em que os funcionários, por causa das progressões, tiveram aumentos acima da inflação. Mas a análise que vem no jornal – e que os sindicatos também usam muitas vezes – compara valores de tabela e não diz que A ou B ganharam ou perderam. Isto é, um professor em topo de carreira ou um deputado ganham hoje menos X% do que receberiam se tivessem sido aumentados pelo valor da inflação. Pelo que li no texto, com interesse porque sou funcionário público, até houve casos de carreiras cujo salário bruto cresceu mais que a inflação porque houve alterações legais. Concordo que a escolha do topo pode pecar por defeito e não ser exaustiva. O ideal seria publicar todos os escalões de todas as carreiras, mas não sei se tem noção da quantidade de casos que existem. Acho que precisavam das páginas todas do jornal.

Sobre o salário bruto e o poder de compra. Como lhe falei, estes salários têm uma estrutura indiciária e é com base na definição anual desse índice que são calculados todos os salários (havendo algumas carreiras específicas). Compreendo a sua dúvida existencial sobre poder de compra, ou melhor, sobre o que mede o poder de compra. Não há, de facto, uma medida concreta mas há formas relativas de o medir. Se o rendimento real das famílias diminui de um ano para outro, houve perda de poder de compra. É apenas a relação entre o rendimento e a quantidade de bens e serviços que é possível adquirir com ele tendo em conta, necessariamente, o nível preços e a sua evolução. Nem sempre é fácil, basta ver a dificuldade e constante reavaliação do cálculo das paridades de poder de compra pelos institutos de estatística. Não sei se o salário bruto é a melhor forma de o medir. Talvez não seja. Há variações de impostos, de subsídios, de contribuições para Seg. Social, etc. Mas presumo que a escolha tenha a ver simplesmente com simplificação. As tabelas do Ministério das Finanças dão apenas esta informação e deve ser complicado analisar valores líquidos num período longo em que é necessário ter em conta variáveis como taxas de retenção na fonte de IRS (que variam no tempo, de acordo com o salário bruto e com a constituição do agregado familiar). Na prática, nem todos os directores gerais têm o menos salário líquido porque podem ter mais ou menos filhos e ser ou não casados. Por isso, normalmente o aconselhado nestas análises é o bruto (e é com esse que as Finanças trabalham).

Cumprimentos

De Miguel Carvalho a 22 de Janeiro de 2008 às 13:28
Acho que concordamos em quase tudo.
Quando diz que "Claro que haverá casos individuais em que os funcionários, por causa das progressões, tiveram aumentos acima da inflação." está a ir de encontro com algo que eu escrevi no post "Estamos a divergir desde os dinossauros - esclarecimento" onde digo que não devemos olhar para casos individuais.

Agora não é verdade que os escalões foram todos aumentos proporcionalmente. O próprio texto refere o congelamento dos
escalões mais altos em alguns anos.

E não é necessário encher o jornal com tabelas, bastaria terem usado a média dos escalões (de preferência com o devido peso) e apresentado esse resultado. O espaço disponível não pode ser desculpa para uma "selection bias".

Quanto ao salário bruto. A sua crítica da dificuldade de calcular paridades de poder de compra não faz sentido, porque se aplica tanto ao salário líquido como ao bruto.

Claro que é complicado estabelecer o salário líquido (e quando digo líquido, pedia ao menos líquido de IRS, já nem falo em subsídios e afins), mas se o jornalista não se quis dar ao trabalho de o fazer, então que não lhe chame poder de compra! Ao fazê-lo está a misturar coisas diferentes.

Também não concordo quando diz que é complicado ver as variações num período, porque (infelizmente) o jornalista nem isso fez. Só comparou dois anos (bem escolhidinhos para dar uma valor mais chocante, mas isso é outra história que seria mais difícil de contornar), logo bastaria verificar as tabelas de IRS nesses dois anos, não nos intermédios. (Se o objectivo era pescar o número mais chocante de todos, então sim, seria necessário as tabelas de IRS de todos os anos).
De Nuno a 22 de Janeiro de 2008 às 15:43
Caro Miguel

Quando digo que os salários são ajustados todos proporcionalmente isso não inclui, é claro, os congelamentos que houve entre 2003 e 2006. Que são, apesar de tudo, uma excepção à regra. Houve uma brincadeira de Ernâni Lopes quando era ministro que foi pagar o subsídio de Natal em certificados de aforro que só poderiam ser movimentados vários meses mais tarde. Mas isso eram outros tempos.

Quanto à média ponderada volto a dizer que é bastante complicado fazê-lo. O último recenseamento de funcionários públicos é de 2006, feito por Luis Fábrica (professor da Católica) e por uma comissão que foi afastada depois, e não chega a esse detalhe. É impossível saber quantos professores, por exemplo, estão em cada escalão em cada ano. O próprio Estado não sabe e todos os anos, até ter congelado as progressões, tinha surpresas na massa salarial por causa desta deriva (wage drift).

Por isso, a única hipótese que resta muitas vezes é olhar para todos - que são muitos acredite, se tiver paciência consulte - ou escolher. E a escolha como diz é sempre redutora, concordo. A opção nestas análises sobre administração pública e comparativos internacionais acaba por ser a comparação dos salários de tabela e não dos salários, de facto. Até porque, por hipótese, em determinado instante e e determinada carreira pode não haver ninguém no escalão superior e estes continuam a existir como referência.

No caso do bruto vs líquido, o problema é semelhante. Os valores brutos são de tabela (publicados anualmente pelas Finanças) e os líquidos são casuísticos. Mesmo considerando apenas a retenção na fonte de IRS e ignorando tudo o resto, teria que se saber se os funcionários são casados, se e quantos filhos têm e quantos dependentes (idosos), por exemplo, têm a seu cargo. Ora, se o Estado não tem informação sobre os funcionários todos, muito menos terá sobre as suas famílias. Terão os serviços quando processam os salários mas não existe uma informação agregada. Volto a dizer, concordo que a análise quanto ao poder de compra poderia ser, em teoria, mais elaborada só que na prática é muito complicado saber mais que isto.

Já agora, pelos dados que tenho, os dois anos (2000 e 2007) que foram comparados correspondem ao período em que os aumentos no Estado foram inferiores à inflação.

Cumprimentos


De Miguel Carvalho a 22 de Janeiro de 2008 às 16:54
Caro Nuno,

Eu não pretendo que cada peça jornalística seja um trabalho académico complexo, porque mesmo esses merecem sempre 1001 reparos. Aquilo que nós queremos fazer no blogue, é chamar a atenção para conclusões abusivas (normalmente a tender para o sensacionalismo) que são feitas. Por isso é que eu digo que aqueles duas "falhas"/escolhas não são inocentes, tanto uma como outra "puxam" o valor apresentado no título para um valor mais sensacionalista.

Colocando a questão de outra forma, o que faria eu como jornalista? Não escreveria títulos com conclusões abusivas, não escreveria professores quando sei perfeitamente que estou só a referir-me a uma minoria. Não escreveria poder de compra, quando sei que não estou a falar de poder de compra.

Indo aos seus comentários.

Congelamento: claro que não é a regra, mas lá está, o jornalista puxou os valores para cima ao fazer aquilo.

Média ponderada: repare que eu só mencionei a ponderação num parêntesis, e repare que poderia ser tirada uma ponderação desse estudo e usada (fixa) para todos os anos por exemplo. Não estaria 100% correcto, claro que não, mas haveria um mínimo esforço para analisar a média (que é o que está implícito no título e é o que os leitores retêm), quando naquele texto não há esforço nenhum. Outro exemplo mais simples, pegar no escalão maior e no menor e fazer a média, e deixar isso bem claro no texto.

Bruto vs líquido: concordamos, mas volto a sublinhar o que disse acima. A minha crítica prende-se com a generalização abusiva que é feita no texto, e não com a simplificação da análise.

2000 e 2007: Exactamente! Foram escolhidos para conseguir aqueles 12% (não é um obviamente uma falha, mas...). Ao escolher outra combinação qualquer, não se teria um número tão forte. Só que 99,9% dos leitores não se vai aperceber que estes 12% são um valor extremo, e vai tomá-lo como referência, como regra. Se me perguntar que período é que deveria tomar, a questão é obviamente difícil, como já referi... e por isso é que não insisti neste ponto. 5 anos, 10 anos, um gráfico com os últimos 10 anos para que 1% dos leitores percebessem que os 12% são um valor extremo.

Cumps
De Nuno a 22 de Janeiro de 2008 às 17:27
Caro Miguel

Tem razão no seu ponto de vista. Os jornais puxam pelos títulos que às vezes não correspondem a 100% ao interior do texto. Pior ainda quando há 1ªs páginas que são feitas pelos directores e muitas vezes desvirtuam o trabalho original. E aí concordo inteiramente consigo.

Quanto à simplificação propriamente dita só dois apontamentos. A referida de base de dados das Finanças que conheço bem não tem a informação por escalões, o que impossibilita fazer essa análise ponderada. A média simples poderia ser uma hipótese aceitável, mas apenas diferiria com o congelamento. Ou seja, nas carreiras onde os mínimos estavam abaixo de 1000 euros e os máximos acima nos anos 2003 a 2006 - e são várias é um facto. Nas que estão todas abaixo ou todas acima dos 1000 euros não há diferenças em termos percentuais (haverá naturalmente em valor).

Em relação ao periodo escolhido, presumo que tenha sido a propósito de ter sido muito falado durante a semana e por ser aquele em que houve descida dos salários reais.

Cumprimentos

De Miguel Carvalho a 22 de Janeiro de 2008 às 20:16
Quanto ao funcionamento interno dos jornais, pouco sei. Sei que há notícias encomendadas, jornais com fins políticos, etc... mas isso é de conhecimento comum.

Mas já tivemos aqui uma jornalista da SIC a informar-nos - aparentemente sem peso na consciência - que os jornalistas na SIC não têm a palavra final nas reportagens que assinam, de modo que já acredito em quase tudo.

Cumprimentos
De Nuno a 22 de Janeiro de 2008 às 12:17
Caro Miguel

Só uma coisa que me esqueci no post anterior. Se tiver paciência verifique as actualizações dos escalões de IRS nos últimos anos que encontra coisas curiosas. A sua análise é correcta e faz todo o sentido mas nem sempre é assim que as coisas são feitas. O Governo tem uma inflação esperada no Orçamento mas não a usa em tudo. Para os salários é essa, para as taxas moderadoras é outra, etc, etc. É uma incoerência lógica que dá muito jeito.

Cumprimentos uma vez mais

De Miguel Carvalho a 22 de Janeiro de 2008 às 13:34
Caro Nuno,

Bem sei, é uma boa trapalhada! Dou-me por feliz de não ser contabilista.

Outra coisa curiosa, que só descobri quando escrevi o post intitulado "Sempre sempre consecutivamente.. com excepções", é que para o cálculo do valor real da mesma medida o Governo usa no OE diferentes definições de inflação em anos diferentes.
Segundo me lembro, era no caso do valor indicativo da inflação esperada para os aumentos salariais, que o Governo ora usava o IPC ora o deflator do consumo privado.

Que use "inflações" diferentes para coisas diferentes não me choca nada, aliás até me parece correcto em alguns casos, agora dentro da mesma medida não faz sentido.

Cumprimentos!

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