Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

A ânsia das... boas notícias

Luísa Pinto escreve no Público de terça que o "sector da construção volta a crescer depois de vários anos em derrapagem acentuada" porque a média móvel de 3 meses do índice de produção do sector cresceu 0,1%. Segundo os dados da notícia há de facto uma inversão da tendência, mas é abusivo chamar-lhe um crescimento, tanto por ser apenas uma observação mensal (apesar de ser uma média móvel de 3 meses, não deixa de ser só uma observação) como por o valor ser ridiculamente baixo. Ou seja há aqui dois problemas.
Erro de medição: todos as estatísticas económicas são sempre estimativas, ou seja valores aproximados. Não podemos olhar para eles como tendo uma precisão matemática infinita. Tal como nas sondagens quando dizemos 34%, esses 34% podem ser na realidade 32% ou 36%, porque é impossível medir com precisão. Assim um valor de 0,1% pode na realidade ser um valor negativo.. ou ainda mais positivo. Seria mais correcto chamar-lhe uma estagnação.
Falta de representatividade: Mesmo que o valor fosse exactamente 0,1%, estamos a falar de uma observação mensal única, numa variável que tem enormes oscilações. Por exemplo este índice (valor mensal, não da média móvel) passou de 78,6 para 74,5 de Agosto para Setembro. Com oscilações desta é normal que haja crescimentos mesmo quando a tendência é de decrescimento. É como dizer no Outono que a temperatura está a subir só porque hoje está mais quente que ontem. (Ou seguindo a ideia da média móvel, porque durante a semana está mais calor do que no fim-de-semana).

P.S. O Banco de Portugal costuma ter uma atitude pedagógica de arredondar e muito as suas previsões, atitude esta que é de louvar. Ou seja quando a previsão para um crescimento é de 2,09%, não é este valor que é apresentado mas sim 2,0% (não sei ao certo como é feito o arredondamento, é apenas um exemplo), porque o erro associado a esta previsão é tão grande que não faz sentido estar a querer dar um valor com uma grande e falsa precisão. No extremo oposto tivemos a ex-ministra das finanças Manuela Ferreira Leite que apresentou uma previsão de 2,944% para o défice.
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publicado por Miguel Carvalho às 10:46
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