Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Guia secreto do Público: como aldrabar nos números e parecer que se é rigoroso

Se uma nova estatística indica um bom resultado:

1. Escrever o oposto no título, e a verdade no texto.
2. Se por alguma razão for impossível, procurar uma estatística passada (seja de que altura for) onde esse valor ainda era melhor.
3. Se não resultar, procurar uma estatística passada cuja variação (mesmo que momentânea e cheia de flutuações) seja melhor.
4. Caso não resulte, enviar o valor a 10 crianças da primária e 10 analfabetos e pedir-lhes para converterem aquilo numa percentagem. Pegar no pior resultado de todos.
5. Em caso de desespero, arranjar outra qualquer coisa qualquer cujo valor seja ainda melhor.

Neste blogue há exemplos de cada um dos casos acima, e hoje tenho mais um do 1 e do 5, nesta notícia de Vítor Costa.

Regularização voluntária de impostos diminuiu e contraria Teixeira dos Santos
(...)
o valor das regularizações voluntárias também aumentou - 28,8 por cento, para mais de mil milhões de euros. No entanto, o peso das regularizações voluntárias nas correcções efectuadas diminuiu para 22,7 por cento, depois de ter atingido 27,4 por cento em 2006, 25,9 em 2005 e 11,9 em 2004.

Um aumento de 28,8 transformado numa diminuição! Como é possível? O valor absoluto aumentou, ponto final. Pode ter havido outras componentes do pagamento de impostos com um crescimento superior, mas nada disso contraria a subida.
O argumento estapafúrdio, que o jornalista usa para justificar o título, é equivalente a afirmar que nos últimos dez anos o número de computadores diminui, apenas porque o número de telemóveis cresceu ainda mais.
E para que não fiquem dúvidas, aqui ficam as declarações do ministro que supostamente foram contrariadas: "Destaco o crescimento que sistematicamente tem vindo a ocorrer em matéria de regularizações voluntárias - quer de correcções à matéria colectável, quer de imposto em falta -, na sequência da intervenção da inspecção tributária e que, em 2007, foi superior a 28 por cento nestas duas vertentes. Trata-se de um bom indicador para aferir a eficiência da inspecção tributária, na medida em que traduz o reconhecimento por parte dos contribuintes da validade e justiça das correcções efectuadas".

Eu peço desculpa pelo sarcasmo, mas esta notícia é um dislate vergonhoso de todo o tamanho.
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publicado por Miguel Carvalho às 13:34
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1 comentário:
De Oscar Carvalho a 21 de Fevereiro de 2008 às 17:29
Miguel, não peças desculpa pelo sarcasmo! Quem deve pedir desculpa a ti, a mim, e a tantos outros, é o Público, pela manipulação de dados.

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