Sábado, 8 de Março de 2008

Nenhum cuidado é muito

Eu e o Miguel interrogávamo-nos esta tarde sobre a razão pela qual a comunicação social trata os resultados de estudos científicos com uma certeza e um determinismo que não são sequer reclamados pelos próprios autores desses estudos. Exemplo recente: o estudo que contestou a eficácia do Prozac no tratamento de doenças do foro psíquico. Se diz que não faz nada é porque nada faz, ponto final. Certo? Errado. Ninguém se lembra que, antes desse, outros estudos foram feitos, com conclusões diferentes, e outros virão com conclusões também diferentes. Quem tem algum conhecimento de estatística percebe que uma coisa chamada "erro amostral " impede que possam ser tiradas conclusões determinísticas em estudos estatísticos. Existe sempre alguma aleatoriedade inerente ao processo de amostragem e, por conseguinte, os resultados vêm sempre na forma de intervalo de confiança, ou algo equivalente. Aliás, este estudo sobre o Prozac consiste na combinação de resultados de outros estudos - todos eles diferentes - para tentar precisamente diminuir esse intervalo de confiança e chegar a resultados mais precisos (mas, ainda assim, meramente probabilísticos).

Vem isto a propósito do artigo do João Silvestre (JS) no caderno de economia do Expresso de hoje, onde nos fala de um estudo elaborado por Miguel St. Aubyn e António Afonso sobre os efeitos do investimento público no PIB real e no investimento privado, em 17 países da OCDE - incluindo Portugal. Escreve ele, logo na capa, que "o investimento público compensa". Não sei se compensa ou não, mas não só os autores do estudo não o dizem como nem sequer os resultados o permitem concluir. O verbo "compensar" comporta em si demasiadas dimensões (incluindo a social) e compensa ser cientificamente prudente. Se é ao retorno meramente económico que JS se refere, pois bem, os números do estudo dizem que até é negativo no longo prazo: 1 euro investido publicamente não chega a ser totalmente recuperado - o que acontece, aliás, com metade dos países analisados.

Depois, diz-nos que o estudo conclui que Portugal é o país dos quinze da UE (antes do alargamento) onde o efeito do investimento público no PIB e no investimento privado é maior. Primeiro, não são quinze, são catorze - o Luxemburgo não foi incluído. JS sabe disso e até o diz no texto, mas nada remove os "quinze" do subtítulo. Segundo, li e reli as conclusões do estudo e não encontrei essa tal. E não está lá porque os autores sabem que não o podem dizer. E não o podem dizer porque sabem que as estimativas a que chegaram são meramente probabilísticas. Embora as estimativas apontem nesse sentido, as amostras são muito pequenas, a aleatoriedade é muito grande e, portanto, é melhor ser prudente.

Aliás, não é preciso sequer passar do sumário executivo para ler o seguinte alerta dos autores, e cito (tradução minha): "Estes efeitos correspondem a estimativas pontuais e a sua interpretação tem de ser cuidadosa, pois os intervalos de confiança a 95 por cento incluem o valor zero em todos casos". Ou seja, nem sequer é líquido que exista um efeito positivo do investimento público sobre o PIB, quanto mais ser o maior dos catorze. JS prefere ignorar a advertência, é muita prudência para a sua camioneta, e certezas inabaláveis serão com certeza jornalisticamente mais convenientes. Em ciência todo o cuidado é pouco, em jornalismo nenhum cuidado é muito.

[Adenda: Ainda assim, parabéns ao JS por procurar e divulgar literatura económica que doutro modo não chegaria ao conhecimento da generalidade do público, ao contrário do estudo do Prozac, que fez um furor desmesurado por tudo o que é jornal]
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publicado por Pedro Bom às 23:54
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