Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Tantos erros na capa, imagine-se o que vai lá por dentro

Não posso deixar de notar a quantidade de vezes que eu escrevo posts sobre a principal notícia do dia nos jornais. Neste caso escrevo apenas sobre o título da primeira notícia da primeira página, uma migalha no jornal. Porque o faço é óbvio: é a notícia que mais chama a atenção, logo aquela que leio com mais cuidado, logo aquela onde mais vez apanho erros. Uma pergunta impõe-se então: será que a "qualidade" vai melhorando lá para dentro?

Hoje em letras gordas na capa do Público: "Há cada vez mais divorciados e viúvos a casar-se pela segunda vez em Portugal". Para sustentar tal tese é apenas referido que "A percentagem de casamentos em que pelo menos um dos envolvidos já tinha sido casado anteriormente duplicou entre 1990 e 2006 - de 10,5 por cento passou para 20,6 por cento (uma em cada cinco) do total de uniões celebradas". Versão online aqui.

1. Este dado não sustenta a afirmação em letras gordas na primeira página porque o número total de uniões celebradas caiu fortemente nesse período, logo um aumento de 10% para 20% do total nem sequer implica que o número absoluto desse tipo de casamentos tenha aumentado. (Por acaso o número total não caiu assim tanto, mas Bárbara Simões não o verifica).

2. Mesmo com um número absoluto deste tipo de casamento a aumentar, este dado não sustenta a afirmação em letras gordas na primeira página, porque número de casamentos não implica número de pessoas casadas. Em 1990 se todos os já-anteriormente-casados casassem com outros já-anteriormente-casados mas em 2006 todos o já-anteriormente-casados casassem com solteiros, teríamos uma duplicação deste tipo de casamentos mesmo para o mesmo número de já-anteriormente casados.

3. Mesmo com um número absoluto deste tipo de casamento a aumentar, e mesmo com a composição do casal a ser constante nos casamentos, este dado pode ser irrelevante porque o número de divorciados e viúvos pode estar a aumentar (o primeiro está de certeza, não verifiquei o segundo). Assim se o número de divorciados duplica e o número de divorciados a casar duplica também, não estamos aqui perante uma alteração em termos de comportamento de recasamento!

4. Não me dei ao trabalho de fazer o trabalho que a Bárbara Simões deveria ter feito, apenas li a conclusão do referido estudo publicado pelo INE, onde se afirma que "as taxas de recasamento de viúvos e divorciados tendem a diminuir tanto em Portugal...". Bolas! Exactamente o contrário do que dá a entender o título.

Estes erros são irrelevantes? Claro que são! Estamos a falar de recasamento de divorciados! Agora se pensarmos que o mesmo tipo de erros acontece em temas bem mais "quentes"...
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publicado por Miguel Carvalho às 09:58
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3 comentários:
De Madalena Ramos a 18 de Julho de 2008 às 12:52
Caro Miguel,

Tive conhecimento do vosso blogue recentemente e achei bastante interessante a sua análise do artigo do Público referente ao estudo em que participei sobre os recasamentos em Portugal e publicado na Revista de Estudos Demográficos.
Não teria feito nenhum comentário, uma vez que concordo em absoluto com a sua análise, se não tivesse visto agora o que diz o Provedor do Público.
Assim, queria apenas esclarecer que os dados referidos no primeiro parágrafo da notícia e que suportam o título da notícia ("A percentagem de casamentos em que pelo menos um dos envolvidos já foi casado anteriormente duplicou entre os anos de 1990 e 2006: de 10,5% passou para 20,6 por cento do total de uniões celebradas"), não são nossos. A fonte é o INE. Aliás, devo acrescentar que a nossa análise incidiu sobre o período que vai de 2001 a 2005.
Resta-me ainda sugerir ao Sr. Provedor do Público que dedique um pouco do seu tempo a ler o nosso artigo publicado na Revista de Estudos Demográficos onde poderá verificar que "Entre 2001 e 2005 o casamento entre duas pessoas onde pelo menos uma delas já tinha sido casada anteriormente (recasamento) cresceu gradualmente, passando de 11357 para 12450 (isto é, em valores relativos, de 14,4% para 18,8%). Este crescimento fica a dever-se essencialmente ao casamento de divorciados – realidade que nas mulheres passa de 7,5% em 2001 para 10,7% em 2005 e nos homens de 9,3% para 12,5%."
Mas não pense o Sr. Provedor que isto lhe vem dar razão. O que isto quer dizer é que, em termos absolutos, temos mais divorciados envolvidos nestes casamentos (o mesmo não acontecendo com os viúvos, o que vem desde logo contrariar o título do Público). Mas isto não quer dizer que a tendência seja para que os divorciados casem mais do que faziam anteriormente. Efectivamente a sua taxa de recasamento diminuiu. Como aliás referimos na conclusão do nosso estudo: "Esta análise quantitativa do recasamento aponta claramente para a sua afirmação enquanto uma prática conjugal dos portugueses, muito embora as taxas de recasamento de viúvos e divorciados tendam a diminuir tanto em Portugal como nos outros países da Europa, à semelhança do que acontece na sociedade norte-americana. Note-se que o aumento dos recasamentos decorre de efeitos de estrutura (composição), isto é, o aumento do divórcio faz crescer o número de divorciados e mesmo com uma diminuição das suas taxas de recasamento o crescimento desta subpopulação é suficiente para fazer aumentar o número de recasamentos."
Em suma, não há contradição na nossa análise. Apenas uma leitura adequada dos números envolvidos.
Um abraço e continuem o bom trabalho.
Madalena Ramos
De Miguel Carvalho a 18 de Julho de 2008 às 15:40
Obrigado pela sua visita.

Devo dizer que este post foi escrito sem sequer ter dado uma vista de olhos no vosso estudo.
Quando escrevi ao provedor, dei então a tal "olhada" e citei uma frase da vossa conclusão, que contrariava o estudo.

Como disse aqui
http://apentefino.blogs.sapo.pt/58215.html
fiquei espantado pelo provedor atribuir a contradição aos autores do estudo, mesmo antes de falar com a jornalista em causa! Devo dizer, que deixei de escrever ao provedor desde essa altura (talvez volte a escrever, quando o nível de aldrabice bater novos recordes).

Não sei se viu o comentário em
http://apentefino.blogs.sapo.pt/59026.html
ou no blog do provedor, mas a jornalista deu-me total razão. A frase na capa foi escolhida sem a consultarem.

Cumprimentos

De Madalena Ramos a 19 de Julho de 2008 às 12:22
Vi o comentário no vosso blog.
Percebo que tenha desisitido de escrever ao Provedor do Público. A sensação que dá é que ele existe para dar razão ao que é escrito no jornal, seja ou não correcto.
Um abraço.
Madalena

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