Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Noves fora nada

Para que da análise de uma amostra de indivíduos se tirem conclusões para a população de indivíduos de onde essa amostra provém, é necessário que a amostra verifique, pelo menos, duas condições: seja aleatória e representativa.

 

A aleatoriedade significa que todos os elementos da população têm uma probabilidade não nula de ser seleccionados para a amostra. A representatividade significa que a estrutura da amostra respeita a estrutura da população nas suas características principais, nomeadamente naquelas que se esperem estar relacionadas com o tópico em estudo.

 

Ora, a notícia do Diário Económico de hoje, em letras garrafais na primeira página, é um insulto grosseiro aos mais elementares princípios estatísticos que permitem a formulação de conclusões sobre uma população a partir de uma amostra.

 

Concluir e afirmar categoricamente no título da notícia em primeira página, e novamente no início do texto, que “os empresários portugueses apoiam obras públicas”, tendo por base uma amostra de 20 empresários contactados pelo jornal, que muito dificilmente representam a população de “empresários portugueses”, é de provocar urticária.

 

Pior ainda: como se não bastasse o facto de a amostra de 20 empresários muito dificilmente ser (aleatória e) representativa da população, lê-se depois no texto que, afinal, apenas 9 daqueles empresários “apoiam” sem reservas os projectos públicos previstos.

 

Ou seja, não só seria errado concluir para a população fosse o que fosse com esta amostra, como ainda por cima a conclusão, mesmo que apenas para a amostra, está errada. Mais de metade dos empresários contactados apoia com reservas ou não apoia os projectos públicos.

 

Das duas uma: ou os erros de análise do jornal são cometidos sem consciência dos mesmos ou, não o sendo, não é ingénuo não querer noticiar a “não-notícia” de que 9 empresários portugueses apoiam obras públicas.

publicado por Carlos Lourenço às 09:08
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2 comentários:
De fliscorno a 24 de Junho de 2008 às 12:12
Também haverá, certamente, "notícias" nascidas das agências de comunicação e dos diversos gabinetes de imprensa com o objectivo de fazer passar uma certa mensagem. Será este o caso?

Não conhecia o blog, tendo cá chegado pel' A Educação do Meu Umbigo. Achei-o interessante.
De Carlos Lourenço a 25 de Outubro de 2008 às 13:44
Obrigado pelo comentário. Quanto à sua pergunta, quero acreditar que não. Por aqui limitamo-nos a "catar" erros, imprecisões, e/ou abusos no uso dos números e das estatísticas.

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