Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Uma capa à Diário de Notícias

... ou melhor uma capa à Rudolfo Rebêlo. Se o Carlos me permite, tenho algumas coisas a acrescentar sobre a notícia que suporta a capa do DN, sobre a qual ele escreveu este post.

 

 

 

1. Ao estilo conversa de café temos a frase "com dificuldades em poupar e fazer compras, o "estado de alma" dos consumidores está no ponto mais baixo desde 2003". Eu não sei onde se foi buscar esta relação causa-efeito (que não vem do INE), mas é curioso citar, bem a propósito, a seguinte frase do relatório de ontem do INE "as opiniões sobre a poupança no momento actual recuperaram nos últimos três meses".

2. "Para os próximos três meses, a intenção de proceder a novas encomendas nunca esteve tão em baixa como actualmente, apesar da quadra tradicionalmente consumista, com o Natal e o 13.º mês (subsídio) a ajudar à facturação de vendas", diz-nos o Rudolfo. Ora, ele baseia-se na seguinte pergunta feita aos consumidores comerciantes*: "excluindo os movimentos de carácter sazonal, pensa que o volume de encomendas aos fornecedores nos próximos três meses" irá aumentar / manter-se / diminuir?

3. "De quem é a culpa deste clima tão deteriorado? Da procura, respondem os comerciantes no inquérito. Em relação à actividade, os lojistas fazem uma apreciação negativa dos últimos três meses e elegem como principal obstáculo à actividade - leia-se vendas - a anemia do consumo. Os inquéritos aos consumidores confirmam o pessimismo demonstrado pelo comércio."

Traduzindo para português: porque é que o comércio está mal? Porque não se vende. E porque é que não há vendas? Porque não há consumo. La Palice não diria melhor.

4."Em relação à actividade, os lojistas fazem uma apreciação negativa dos últimos três meses e elegem como principal obstáculo à actividade - leia-se vendas - a anemia do consumo. Os inquéritos aos consumidores confirmam o pessimismo demonstrado pelo comércio.  Este cenário de repressão nas despesas das famílias é confirmado por outras fontes. Já o INE, na sua folha de conjuntura de Outubro, tinha referido o pessimismo dos lojistas". Curioso o Rudolfo não se referir ao indicador que mede as despesas das famílias, quando está a falar das despesas das famílias, indo buscar o pessimismo dos lojistas. Talvez seja porque no relatório de semana passada, onde saiu a última estimativa da evolução do consumo das famílias, se possa ler que "ao nível da procura interna, o consumo privado acelerou no 3º trimestre".

5. "...as encomendas aos seus fornecedores (grossistas) - também eles a revelarem pessimismo para os próximos tempos - estão em queda, atingindo o ponto mais baixo de sempre". Cá temos o erro habitual do Rudolfo, confundindo nível com variação - além de confundir expectativas para o futuro (no inquérito) com observações (ponto mais baixo das encomendas no texto). Mais uma vez, o INE pergunta como se pensa que vão variar as encomendas nos próximos meses. A variação prevista é a mais baixa de "sempre" (2003, na realidade...), mas isso não implica de modo nenhum que as encomendas sejam as mais baixas de sempre. Pode esperar-se um aquecimento enorme para amanhã, o que não faz do dia de amanhã o dia mais quente de sempre.

 

*(corrigido após uma chamada de atenção de um leitor)

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publicado por Miguel Carvalho às 18:57
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9 comentários:
De Oscar Carvalho a 29 de Novembro de 2008 às 16:05
Hoje no Expresso, há uma entrevista a Robert Aumann , prémio Nobel da Economia em 2005, que, a propósito da crise financeira insinua alguma responsabilidade dos meios de comunicação naquilo que afirma ser um exagero de avaliação: "...as catástrofes são notícia. Quando tudo vai bem não há notícia"!
O comportamento ético e a responsabilidade social das empresas, é assunto falado há longo tempo. Até há várias certificações disponíveis.
Não sendo ingénuo, vejo nas empresas que se dizem empenhadas na responsabilidade social, intenções que vão desde a sincera aderência aos princípios éticos, à mais baixa manipulação para efeitos de marketing.
Mas na comunicação social, nada se passa. Interpretam o mundo como entendem, e não pensam nas consequências dos seus actos, para além da necessidade de acender os holofotes.
Censura? Decerto que não é isso que queremos. Comportamento ético, responsabilidade social isso sim.
De Rudolfo Rebêlo a 27 de Dezembro de 2008 às 17:55
Sr. Óscar Carvalho,
Não sei em que contexto Roberto Aumann insinuou o que insinuou... Mas é evidente que as catástrofes são notícia. Mas há o outro lado da questão: se a comunicação social estivesse mais atenta, mais cedo, ou tivesse recebido contributo de analistas atentos, talvez as coisas (a crise) não se tivessem passado assim, pelo menos com esta gravidade e irresponsabilidade. É que quem deveria estar atento, não esteve: supervisores, economistas, universitários, sociólogos, pensadores, etc. Claro que a tentação de deitar as culpas aos jornais, é uma característica bem portuguesa. Mas algo é claro na história: nunca os jornais foram detonadores de crises ou adensaram crises. Quando muito, foram catalisadores. E, convenhamos, ainda bem.
De Oscar Carvalho a 29 de Dezembro de 2008 às 18:16
As catástrofes serão notícia, é facto. Mas o jornalista deveria abster-se de as empolar.
O "real" antes de ser relatado é diferente do "real" após relato.
Relembro o Código deontológico da profissão:
Artigo 1.O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.
De Rudolo Rebêlo a 26 de Dezembro de 2008 às 18:13
Miguel Carvalho: "a poupança melhorou nos últimos três meses". Não quer dizer quanto? ou pelo menos indicar aos seus leitores as diferenças. Será que estamos a afalar da variação de um milimetro ou de cem metros, (em relação a anterior inquérito)? Vá lá, diga. Pra gente se rir um pouco. Indique os minimos, os máximos e a média das séries. (consulte INE ou o site da CE).
Quanto ao resto, percebo que esteja aborrecido. Ma é o que há, é o retrato real.
Quanto ao pessimismo: Pois, entendo, mas a notícia não é o cão a morder no homem. É o homem a morder o cão.
De Miguel Carvalho a 28 de Dezembro de 2008 às 17:40
Caro Rudolfo

não pensei que a sua honestidade intelectual descesse tão baixo, ao ponto de citar ENTRE ASPAS - o que deve indicar uma citação literal - um frase como minha, que eu não escrevi em lado nenhum.
Só por curiosidade a frase em causa - que você deturpou - é copiada literalmente do relatório do INE, não é minha. É por isso mesmo que eu uso aspas.

Quase tão grave, é que você fala de um assunto paralelo. O que está em causa no SEU texto, no meu post e no relatório do INE não são os valores da poupança, mas o sentimento perante a poupança. Você diz que as pessoas se vêm com dificuldades para poupar, e o INE diz que as opiniões sobre a poupança têm melhorado.

De resto não posso deixar de notar que nem contraria a minha crítica no ponto 1, nem se refere as pontos seguintes... mas outra coisa não esperava
De Rudolfo Rebêlo a 27 de Dezembro de 2008 às 18:34
Bom, depois de ver se o "poupar mais" é três milimetros ou tres metros, voltemos à vaca fria:
Miguel no seu ponto 2) Dois erros. Primeiro a pergunta não é feita aos consumidores (veja bem, procure a quem é, esforce-se). Segundo o questionário é o que está publicado na CE e não consta a premissa "sazonal".
No seu ponto 4º. O parágrafo é dedicado aos lojistas e devem estar pessimistas por causa do resfriado porque deixaram aberta a porta por onde entrou o gajito do INE a questionar. Quanto ao consumo, Miguel, esteja um pouco mais atento. Volto à velha questão: não é igual crescer 50% ou 0,005%... (para si, já vimos, desde que cresça, não importa a "qualidade" do crescimento...enfim)
"La Palisse não diria melhor". Claro, porque está admirado? Não lhe convém? soa-lhe mal? a maioria dos leitores não é economista (muito longe) e o DN não é um especializado. Essas diferenças tem a haver com os mercados, julgo que voçê, mesmo sendo de Gestão, ainda não ganhou sensibilidade para ver isto... uma pena.
Quanto aos "pontos", "nível" e variação". Miguel, quem lhe disse que os "pontos" são os níveis (quantidades)? Você tira cd conclusão... um erro clássico seu, é o de julgar que os conceitos da matemática (nem sequer é este o caso com os "pontos") aplica-se na linguagem normal, do dia- a dia. Um dia deste, perderei algum tempo a explicar-lhe isto. Deixo-lhe um exemplo: Porque todos omitimos FBCF e optamos por escrever investimento (há imensos exemplos...)?
Qdo estão em causa quantidades, sabemos todos que não é a quantidade mais baixa de sempre, caso contrário estariamos em guerra civil... é difícil encaixar isto?
De Miguel Carvalho a 29 de Dezembro de 2008 às 19:00
>Miguel no seu ponto 2) Dois erros. Primeiro a pergunta não é feita aos consumidores (veja bem, procure a quem é, esforce-se). Segundo o questionário é o que está publicado na CE e não consta a premissa "sazonal".

Tem toda a razão quanto ao primeiro ponto (não é feita ao consumidores), mas acho que é óbvio no post que é uma distracção que NÃO ALTERA O ESSENCIAL. Vou corrigir o post.
Quanto ao questionário, o SEU artigo refere um inquérito do INE, não venha agora para aqui buscar a CE. Mais uma vez a sua honestidade intelectual espanta-me. Como qualquer pessoa pode verificar, no inquérito em causa (disponível em http://www.ine.pt/ngt_server/attachfileu.jsp?look_parentBoui=45110281&att_display=n&att_download=y ), na página 8 temos a seguinte pergunta (cópia literal):
Excluindo os movimentos de carácter sazonal, pensa que o volume de encomendas aos fornecedores nos próximos três meses
irá: 1. Aumentar; 2. Manter-se; 3. Diminuir.

> No seu ponto 4º. O parágrafo é dedicado aos lojistas e devem estar pessimistas por causa do resfriado porque deixaram aberta a porta por onde entrou o gajito do INE a questionar. Quanto ao consumo, Miguel, esteja um pouco mais atento. Volto à velha questão: não é igual crescer 50% ou 0,005%... (para si, já vimos, desde que cresça, não importa a "qualidade" do crescimento...enfim)

Não é o pessimismo dos lojistas que está em causa, não sei porque o foi buscar. Você diz que há repressão do consumo e eu cito o INE para provar o contrário. A mim é me TOTALMENTE IRRELEVANTE se é pouco ou se é muito, isso é um questão SUBJECTIVA - e já deveria ter percebido que questões subjectivas não são para aqui chamadas no blogue. A questão OBJECTIVA é muito simples: você diz que há repressão do consumo, eu mostro que não só subiu como acelerou. Ou é preto ou é branco, não estou a falar de tonalidades de cinzento. E você escolheu a cor errada.

> Quanto aos "pontos", "nível" e variação". Miguel, quem lhe disse que os "pontos" são os níveis (quantidades)? Você tira cd conclusão... um erro clássico seu, é o de julgar que os conceitos da matemática (nem sequer é este o caso com os "pontos") aplica-se na linguagem normal, do dia- a dia. Um dia deste, perderei algum tempo a explicar-lhe isto. Deixo-lhe um exemplo: Porque todos omitimos FBCF e optamos por escrever investimento (há imensos exemplos...)?
Qdo estão em causa quantidades, sabemos todos que não é a quantidade mais baixa de sempre, caso contrário estariamos em guerra civil... é difícil encaixar isto?

Eu não pedi que usasse conceitos matemáticos no seu artigo. Pedi apenas que não confundisse as coisas. De pouco lhe serve dizer agora que "todos sabemos...", porque a sua frase no artigo é muito clara: "as encomendas (...) estão em queda, atingindo o ponto mais baixo de sempre". São as encomendas que - segundo você - atingiram o ponto mais baixo de sempre. Se as encomendas não são uma quantidade, não sei o que serão então.
De Rudolfo Rebêlo a 2 de Janeiro de 2009 às 20:40
Caro Miguel,
Você distrai-se, (coisa "proibida" aos jornalista; o que está publicado, está publicado...), apaga posts qdo erra ou demonstra ignorância (ficou provado, o que foi uma vergonha!), engana-se, etc. Agora inaugurou o modelo do asteristico (o leitor, caro Miguel, fui eu; só depois do post publicado é que você mudou)...
Vamos ao poupar: página 7 do INE. Em Set, Out e Novembro, respectivamente (negativos) 56,7; 56,1; 56,4, quanto à questão "capacidade de poupar. dinheiro nos próx. 12 meses"). Quanto às poupanças no presente, estão disponíveis no site da CE, e se souber lá consultar, deixará a teimosia de parte e ao que chama de melhoria verá que é a questão dos metros e dos milimetros... (não seja ridículo, veja o pano de fundo e tire o retrato genérico da situação) Do ponto de vista estatístico o INE terá de o registar, como é óbvio, mas convenhamos que não muda o sentimento geral, de modo algum, sabendo ainda por cima que as expectativas de futuro estão em degradação.O mesmo relatório do INE, se ler com atenção diz "O SRE das expectctivas(...) das poupanças interrompeu o ténue movimento ascendente dos 4 meses anteriores".

Caro Miguel, com este pano de fundo, o que você faz? Uma coisa verdadeiramente escabrosa, atentatória à verdade e à intelectualidade. Porque se "esqueceu" juntar à frase "As opiniões sobre a poupança no momento actual recuperaram nos últimos três meses", a seguinte, imediata, "após terem estabilizado em Agosto no minimo histórico da série"?
Agora, para ser honesto no seu blogue, faça um favor: vá à série e veja quantos "milimetros" avançou... (pois isso não convém... é o seu erros clássico: crescer 0,0005 não é o mesmo que crescer 5,0!) É que da forma como o Miguel escreve, até parece que a "sentimento da poupança" passou para valores positivos. Acrescente a isto, o sentimento dos lojistas (a tal questão do seu La Palisse...) Enfim, uma clássica tentativa de manipulação na informação, desinformando, escondendo o quadro de dificuldades...
Qto às encomendas: meu caro, consulte o site da CE. E mais uma vez veja se consegue distinguir a árvore da floresta.
Encomendas/quantidade (..?)
É uma capa à Rudolfo? É, com todo o gosto. De modos a que a maioria dos leitores entenda, teremos de desbravar, popularizar, no bem sentido, a economia.
PS. Quanto ao seu amigo PB, continua calado. Envergonhado?
De Miguel Carvalho a 3 de Janeiro de 2009 às 13:54
Caro Rudolfo,

Distracções:
NUNCA aqui houve um post sobre uma troca de palavras por distracção de algum jornalistas (bom, se a troca foi "crescimento" por "queda", obviamente que isto não pode ser visto como uma simples distracção).
A minha distracção, não alterou o essencial. Você é que não o quer perceber, e percebe-se porquê...
O leitor obviamente que foi você, quem haveria de ter sido?! Será que não o posso considerar um leitor do blog? Ficou ofendido por isso, foi?



metros vs milimetros
Já lhe expliquei mais de 5 vezes que não é isso que está em causa no blog. Fica aqui o meu aviso pessoal, se voltar a insistir nesse ponto sem querer ver o essencial, deixo de lhe responder por falta de paciência.



Sazonalidade
Já não há pachorra. Pode falar da CE, do FMI, das cartas de tarot, do que quiser. A SUA notícia era EXCLUSIVAMENTE sobre os dados do INE, que tinham sido publicados na VÉSPERA.
Não há UMA ÚNICA REFERÊNCIA à CE no sua notícia.
Agora quando eu mostro que há uma incongruência entre o seu texto e a sua fonte, você vai buscar outra coisa qualquer?



Encomendas/Quantidade
Você quando encomenda maçãs, encomenda em maçãs ou em "crescimento de maçãs"? Estamos esclarecidos portanto.



Pedro
Como já disse, ele já perdeu a pachorra de ter comentários seus, que falam de laranjas quando estão em causa maçãs.
Aliás, depois deste caso dos dados do INE, faço-lhe uma promessa: se não vier com críticas objectivas e sérias, também eu deixarei de responder.


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