Sábado, 7 de Março de 2009

Partida (tardia) de Carnaval?

Abro o Público online e o segundo título afirma:

Recessão na zona euro arrasta PIB nacional para valor mínimo desde 1975

 

O disparate é demasiado vergonhoso, não precisa de comentários.

 

Adenda: Entretanto lembrei-me que quem escreveu aquele disparate (o Sérgio Aníbal ou a Ana Rita Faria) poderia ler este post. Por isso, dei-me ao trabalho de verificar os valores na página da OCDE... uns 2 ou 3 penosos minutos. Tempo a mais certametne para o Sérgio e a Ana.

 

GDP, US $, constant prices, constant PPPs, reference year 2000, millions Portugal

1975: 74 346.2

2007: 188 342.6

 

Em 2008 aparentemente não variou, em 2009 deverá diminuir 2%, ou seja em 2009 o valor será na ordem dos 184, 185. Que continua a ser maior que 74. Apenas ligeiramente, mas maior.

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publicado por Miguel Carvalho às 11:12
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Ao comprar pastéis de camarão está a aumentar os impostos

"Governo promete aumento de impostos" diz o Correio da Manhã em letras gigantes.  A "conclusão" é baseada nas estimativas do peso da carga fiscal -que constam do PEC - que têm variações na ordem dos 0,1 e 0,2 pontos percentuais.

 

Primeiro de tudo é ridículo dar qualquer importância a variações deste tamanho, especialmente neste caso em que se trata de previsões. Segundo a notícia, a variação de 2007 para 2009 será de -1.5pp, o que mostra o quão insignificantes são aqueles valores.

 

Segundo, o CM "confunde" na capa - mas já não o faz no corpo do texto - carga fiscal com o nível dos impostos. Se eu este ano decidir comprar pastéis de camarão em vez de pastéis de vegetais, estou a pagar mais IVA (os primeiros têm um IVA maior), ou seja estou a aumentar a minha "carga fiscal". O que é que o Correio da Manhã vê ali? Uma alteração do consumo? Não, um aumento dos impostos!

Outro exemplo, se houver menos gente a fugir aos impostos, o CM não  vê nisso uma redução da fuga ao fisco, mas um aumento de impostos!

 

Por último, um apontamento tragicómico. As receitas fiscais dos impostos directos (em percentagem do PIB) vão ter - segundo o texto - o seguinte comportamento: 9,8%, 9,6% e 9,7%. Há ali primeiro uma redução e depois um aumento, metade da redução (ambos totalmente insiginificantes como já disse). O que é que o parágrafo introdutório diz? "[O PEC...] deixa claro que os impostos directos e indirectos vão aumentar nos próximos dois anos." Não interessa o comportamento geral, interessa é que lá pelo meio haja uma subida.

publicado por Miguel Carvalho às 11:42
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Porque sim

Adenda:

Cometi o erro de assumir que o título do texto referido no post abaixo, se referia exclusivamente a esse texto. Não tendo tido a hipótese de verificar a versão física do jornal (apenas a online), não percebi que o título se referia sim a algo não disponível online. A autoria do "erro" que crítico no post não é assim do autor do texto, mas da composição da versão online do jornal.

As minhas desculpas pela crítica injusta. (Ver comentários)

 

Para um texto sobre previsões de diferentes analistas sobre os dados económicos do último trimestre de 2008, e onde não há uma única referência sobre o ano de 2009, Rudolfo Rebêlo escolhe hoje no DN o título:

FAMÍLIAS SEM DINHEIRO AGRAVAM CRISE EM 2009

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publicado por Miguel Carvalho às 11:29
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Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

A ânsia das más notícias VI

Exportações agudizam-se em Novembro e caem 20,6 por cento diz um título do Público online.

 

Estranho, ainda há pouco tinha dado uma vista de olhos nos dois relatórios do INE saídos hoje sobre o comércio externo, e não me lembro deste número.

Releio os títulos, e de facto os números são outros.

Releio os resumos, e de facto os números são outros.

Releio a primeira página de ambos, e os números teimam em ser outros.

Finalmente, perdidos no meio de uma frase numa segunda página encontro os tais 20,6%.

 

O Eduardo Melo abusa do facto de a palavra  "exportações" poder ter 1001 significados, para pescar o pior resultado possível. Não vou estar aqui a definir as 1001 possibilidades, porque acho que o  simples facto de o número constar apenas de uma segunda página de um dos dois relatórios do INE é suficiente para provar o quão rebuscada é a escolha do Público.

Dito por outras palavras, nem a primeira, nem a segunda nem talvez a vigésima interpretação mais comuns daquela frase serão correctas. Se isto não é induzir o leitor em erro, não sei o que será.

 

Isto não é informação, é sensacionalismo barato.

 

Adenda:

Os 20,6% são o 46º número que se encontra ao ler um dos dois relatórios.

 

O "tipo" de variável escolhido nem tem grande relevância, por ser altamente volátil. Nos últimos meses houve até uma variação de 40 pontos percentuais de uma mês para o outro (ou seja estes -20% poderiam saltar para -60% ou +20% daqui um mês).

 

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publicado por Miguel Carvalho às 16:22
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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Acho que se chama dualidade de critérios

Ontem em conversa com o Pedro Bom comentava que era complicado ser totalmente objectivo (como tentamos sempre ser) na análise dos critérios editoriais. Tenho alguma pena, porque a leve preferenciazinha pela desgraça dos media é uma óbvia causa de deturpação da informação passada. Não nos cabe de modo algum julgar as escolhas editoriais (entre focar um roubo na Ponte da Três Entradas ou uma cimeira internacional), mas cabe-nos avaliar objectivamente se a informação é distorcida.

 

Hoje caiu-me uma prenda no colo. O Eurostat disse que Portugal teve a segunda maior quebras das vendas a retalho na UE27 em termos de variação mensal, e se descontarmos 11* dos 27 focando-nos na Zona Euro, Portugal tem a pior quebra. O Púbico diz (e bem) em título

 

Vendas a retalho de Dezembro recuam em Portugal mas estabilizam na Zona Euro.

 

Há 5 meses saiu um relatório igualzinho do Eurostat, dizendo que Portugal tinha tido a maior subida das vendas a retalho (também em termos mensais), não só na Zona Euro como na UE27. O Público escolhia então para título online

 

Consumo, investimento e exportações, todos em queda na Zona Euro

 

sem menção alguma a Portugal no texto, e para título no jornal

 

Consumidores pessimistas travaram a economia europeia
Consumo privado na zona euro registou no segundo trimestre a taxa de crescimento mais baixa dos últimos doze anos

 

mais uma vez sem qualquer menção a Portugal.


* Na realide deve descontar-se 12, porque em Dezembro a Zona Euro consistia apenas de 15 países.

publicado por Miguel Carvalho às 15:20
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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

O que sai também pode entrar II (editado)

O Destak também entra na moda de confundir entradas (ou saídas) com o saldo de entradas e saídas no mercado de trabalho, neste caso no grupo dos desempregados. Na capa hoje em grande 225 novos desempregados por dia. Segundo "contas" do Destak houve 7000 trabalhadores que foram despedidas em Janeiro. Ora aqui ficam dois exercícios muito avançados de matemática:

 

1) Houve 10 pessoas despedidas e nenhuma contratada. Quantos desempregados novos há? Resposta:  10

2) Houve 10 pessoas despedidas e 4 contratadas. Quantos desempregados novos há? Resposta: 6

(Se pertence ao corpo editorial do Destak e ainda não percebeu esta resposta, envie um e-mail que nós explicamos mais devagarinho).

 

Para não beliscar a fama dos jornais gratuitos, o disparate ainda aumenta lá para dentro:

Ao longo dos 31 dias de Janeiro deste ano, 7 mil trabalhadores foram despedidos ou viram os seus postos de trabalho ameaçados*... Então mas, chamar na capa e em letras garrafais  "desempregado" a uma pessoa que não foi despedida não será, digamos, uma impostura? Se calhar sou só eu...

 

* Mais tarde notei que esta frase também consta da capa, em letras pequenas. De qualquer modo isso não invalida a minha crítica

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publicado por Miguel Carvalho às 20:21
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Sábado, 10 de Janeiro de 2009

Arranjem alguém de jeito para escrever as capas do jornais

Défice externo vai consumir todo o PIB em 2010 diz a capa do SOL.

 

É impressionante que depois de tantos anos a falar no défice orçamental, ainda haja quem  não tenha percebido a diferença entre défice e dívida. Se eu disser que o défice orçamental anda acima dos 60% até as criancinhas sabem que eu estou a  cometer um erro. Pelos vistos alguém no corpo editorial do SOL até concordaria.

 

A expressão "vai consumir todo o PIB" também tem o seu encanto. Primeiro porque dá a entender, em mais um exemplo de sensacionalismo barato, que tudo o que produzimos vai ser levado. Ou seja não se confunde só dívida com défice, como também se confunde dívida com o seu pagamento. Segundo porque prova que a troca de "dívida" e "défice" não foi uma simples distracção, mas é causada por desconhecimento.

 

No texto (da capa, que eu não vou gastar 2,5€ para poder ler o interior do bicho) temos "... ficando o país totalmente hipotecado ao estrangeiro". Ai, ai... Se eu ganho 10 e peço um empréstimo de 100 para comprar uma casa de 100, pela lógica da batata (ou do nabo) do SOL, eu estaria totalmente hipotecado 10 vezes...

 

Na edição online ainda se vê um subtítulo "Todo o valor de Portugal", referindo-se aos 100% do PIB. Esta gente não faz a mínima ideia o que é isso do PIB. Mais uma vez, se eu tiver 20 moradias, 100 automóveis, 20 iates, um saca-rolhas de plástico e 10 castelos do Playmobil, mas tiver também o azar de ter sido despedido, qualquer criancinha diria que eu sou rico (pelos castelos, claro). Para o corpo editorial do SOL, não. Os valores que eu possuo resumem-se ao subsídio de desemprego.

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publicado por Miguel Carvalho às 14:36
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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Não compliquem

A eterna mania das palavras pomposas...

 

No Diário Digital

 

Zona Euro: inflação desacelera para 1,6%
A taxa de inflação homóloga na zona euro desacelerou para 1,6%, em Dezembro de 2008, indica a estimativa rápida publicada esta terça-feira pelo Eurostat.

De acordo com o gabinete europeu de estatística, o indicador calculado com base no critério harmonizado de preços no consumidor desceu dos 2,1%, apurados para Novembro, para 1,6% no último mês do ano passado.

 

Se a inflação caiu de 2,1% para 1,6%, não se diz que ela desacelerou (até pode ter desacelerado, mas não se vê por aqui). O que realmente desacelerou foram os preços.

 

Não compliquem, que normalmente dá problemas. Se a inflação caiu, escrevam apenas "a inflação caiu". Os leitores agradecem o rigor.

 

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publicado por Miguel Carvalho às 12:39
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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Decrescer de 1 para 2, e de 2 para 3

(post que esteve pendente por problemas no blogs.sapo)

 

Já não há paciência para isto*. Quando as coisas crescem, mas o pessoal está com vontade de fazer o gostinho do sensacionalismo e catastrofismo ao dedo, até uma desaceleração (que acontece aproximadamente em metade das medições) serve para fazer títulos negros.

Traduzido por miúdos, temos jornalistas que quando vêem algo a crescer de 1 para 2,  e de 2 para 3, inventam aqui uma queda.

 

Nem a imprensa económica escapa. No Diário Económico de dia 20, temos num título "Itália** - Famílias com menos riqueza" (a aldrabice vem sempre no título). Mas no texto lê-se "a riqueza total dos agregados italianos cresceu 3,9% em 2007". Mais à frente ficamos a saber que a média do crescimento dos últimos anos foi de 6,2%, suponho que tenha sido a partir daqui que se inventou o decréscimo de riqueza do título.

 

* Este disparate é tão comum, que vou criar uma tag aqui para o blogue, vou chamar-lhe "123 é a subir"

** Felizmente para mim, a notícia não se refere a Portugal. Safo-me assim de reacções pavlovianas de quem, estando sedento de más notícias, confunde uma exigência de rigor com uma qualquer opinião política.

publicado por Miguel Carvalho às 19:47
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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Trabalhar cansa

A taxa de inflação atingiu o valor mais baixo dos últimos dois anos, dizia-se no Telejornal da RTP, citação (actualizada) literal.

Será que há 2 anos era inferior? Não!

A questão é que o relatório de hoje do INE só tem uma tabela com os últimos 2 anos!

 

Se o jornalista se desse ao trabalho de ir ver a página do INE, verificaria que não há nenhum valor inferior para a inflação nos dados que lá existem, ou seja desde 2002. Algo como 1 minuto de trabalho.

(Se a notícia fosse negativa, lá se diria que foi a "pior inflação de sempre", sendo que o "sempre" normalmente significa "até à data a que me dei o trabalho de verificar". Exemplos disso não faltam aqui no blog.)

 

Se o jornalista se desse ao trabalho de verificar o Eurostat (que só tem o HIPC, um índice muito próximo, mas diferente do IPC), verificaria que só em 1998 houve uma taxa de inflação inferior. Outro penoso minuto de trabalho.

 

Pondo a questão de outra forma, se não foi verificado o valor mínimo (e eu não estou de modo nenhum a dizer que deveria ter sido feito), por que é foi inventado aquele pormenor do "mínimo desde há dois anos"?

 

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publicado por Miguel Carvalho às 20:20
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