Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Estamos em último, se descontarmos os que estão para trás

Portugal tem a sexta taxa de desemprego mais elevada da OCDE diz o Público. O facto de faltarem estatísticas de 8 países, e de a França ter o mesmo valor que Portugal, não parece sensibilizar o Público.

Por outro palavras este título está tão perto da realidade como estaria o seguinte "Portugal tem a 15ª taxa de desemprego mais elevada da OCDE".

publicado por Miguel Carvalho às 15:04
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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

O feitiço virou-se contra o feiticeiro

A imensidão de interpretações que um termo económico como "queda da exportações" pode ter, é o paraíso para um jornalista sensacionalista. São várias escolhas possíveis: mensal, trimestral ou anual. Homólogo, período anterior ou média. Nível ou variação. Real, nominal, percentagem do PIB, percentagem do média comunitária, etc. É só fazer a combinação certa entre elas e há sempre uma notícia má para dar.

Tenho pena de não haver mais exemplos disto no blogue, mas infelizmente não há sempre uma "escolha certa". Não havendo, a crítica deixa de ser objectiva.

  

Hoje no Público, esta imensidão de escolhas virou-se contra o jornalista (que não estava de modo nenhum a ser sensacionalista).

 

As exportações portuguesas cairam [sic] 31,4 por cento em Fevereiro e face ao mesmo mês de 2008. As compras ao estrangeiro recuaram a um ritmo mais elevado (34,1 por cento) o que fez com que a taxa de cobertura das importações pelas exportações fosse, no final do trimestre terminado em Fevereiro, fosse de 75,4 por cento, muito acima dos 58,4 por cento apurados no entre Dezembro de 2007 e Fevereiro de 2009.

 

1.  Mesmo que Dez07 fosse igual a Dez08, e Jan08 fosse igual a Jan09, o facto de as exportações em Fev09 terem crescido mais ou menos do que as importações nada implica sobre a variação da taxa de cobertura. Quando temos uma fracção (taxa cobertura) com várias parcelas em cima e em baixo, e aumentamos uma delas em cima (exportações fev09) e uma delas em baixo (importações fev09) do mesmo modo, o resultado não será o mesmo.

 

2. Os valores da primeira frase nada têm a ver com os da segunda frase. São de linhas dfierentes da mesma tabela, logo items diferentes. A taxa de cobertura passou sim de 63% para 61,6%. Piorou na realidade ao contrário do que o jornalista nos quer fazer querer!  (Serve também como exemplo do que queria mostrar no ponto 1.)

 

A quebra de Fevereiro, nas exportações, segundo o Instituto Nacional de Estatística, segue-se a um recuo homólogo de 28,9 por cento em Janeiro e foi muito influenciada pelos combustíveis e lubrificantes, cujas vendas cairam 51,4 por cento, e pela maquinaria (-24 por cento).
Quanto às importações, o peso essencial relaciona-se com os combustíveis e o material de transporte (-37,3 por cento), muito associado à crise da indústria automóvel.

3. Não percebo porque pega na maquinaria (que até desceu menos que a média!) nem no material de transporte. No primeiro caso há outra categoria que desce mais em % e em valor. No segundo, o "peso essencial" viria de outra categoria cuja variação em valor é maior, logo maior peso na taxa de cobertura e na variação homóloga.

Por outras palavras, se as exportações de amendoim caíssem 99% isso não daria ao amendoim um "peso essencial".

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publicado por Miguel Carvalho às 12:59
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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009

Eu tenho cá uma ideia de quem deveria estar no desemprego...

Hoje na SIC e SICNotícias ouve-se os seguintes disparates (não é literal, mas a ideia era essa)

 

Número de desempregados aumentou 27,3% em relação a Janeiro de 2008

Na suposta fonte da notícia, um relatório do IEFP, lê-se que o número de desempregados  variou +12,1%. Habituado à confusão de muitos jornalistas entre stock e fluxo, imaginei que tivesse sido a variação do número de desempregados que aumentou 27,3%. Mas também não é, o relatório não tem dados que possam calcular essa variação. Os 27,3% referem-se sim à variação do número de novos trabalhadores inscritos como desempregados. O problema é que não há nenhuma relação directa entre este número e o número de desempregados. Pode haver um aumento do número de novas inscrições e o desemprego descer. (Não é o caso, claro! Mas mostra como se confunde coisas com pouca relação entre si)

 

Portugal ganhou 70 mil novos desempregados

Aqui o computador diz que 448 menos 416 dá 32, mas a SIC lá saberá onde inventou os 70.

(Adenda: reler este post e os comentários a ele para perceber o que quero dizer com este ponto)

 

Cada vez mais cursos deixam de ser garantia de trabalho

 

Quem lançou esta notícia foi o JN, onde se lê que há menos 4% (em número absoluto) de licenciados desempregados. Ora num clima de aumento de desemprego, a existência de menos licenciados desempregados a levar a alguma conclusão seria exactamente a oposta do que a SIC diz!

Os cursos que dão menos garantia de trabalho são Psicologia, Gestão, etc.

 

Há muito mais pobres nos EUA do que no Tuvalu, mas isso é porque o Tuvalu é pequeno, não é porque os norte-americanos tenham maior probabilidade de ser pobres. Se houver 5 médicos desempregados, e a licenciatura em Engenharia de Descascadores de Batatas tiver todos os seus 4 licenciados no desemprego, a SIC diria que a licenciatura em Medicina garante menos emprego... pois.

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publicado por Miguel Carvalho às 15:00
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Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

A velha confusão de sempre II

Mais uma confusão entre o valor e a sua variação, agora vindo da imprensa dita económica.

"Os portugueses são dos que compram mais carros na Europa", diz a capa do Diário Económico. O título não é claro mas refere-se aos dados de compra de carros novos e não compra de carros em geral como dá a entender. E dentro dos carros novos o título é totalmente falso. Desde o início do ano compraram-se 10,4 por cada mil habitantes em Portugal, e 16,4 na União Europeia. E sim, 16,4 é bem mais que 10,4.  O que realmente aconteceu foi que a variação da venda de carros novos em Portugal foi das que teve um melhor desempenho.

Usando o exemplo do post de ontem, e para que o pessoal no Diário Económico perceba, o facto de eu estar a uma velocidade superior (variação) não implica que esteja mais longe (posição) do ponto de partida.

Mais um exemplo de ligeireza do nosso jornalismo.

publicado por Miguel Carvalho às 11:55
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Terça-feira, 15 de Julho de 2008

A velha confusão de sempre

A inflação é a variação dos preços, não é uma média/índice de preços. Tal como a velocidade é a variação da nossa posição. Eu posso ir a 140km/h e abrandar para os 120km/h que não deixo de me afastar do meu ponto de partida. Assim a inflação pode subir e descer, mas desde que seja positiva, os preços estão sempre a subir.

No Telejornal da RTP de ontem dizia-se "os preços voltaram a subir, atingiram o valor mais elevado desde há dois anos", querendo com isto dizer que há dois anos ainda estavam mais altos. Ora isto não é verdade, em termos homólogos os preços nunca pararam de subir e em termos mensais creio que houve uma ou duas excepções. A taxa de inflação, essa sim, está ao nível mais alto desde há dois anos.

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publicado por Miguel Carvalho às 16:02
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Terça-feira, 1 de Julho de 2008

Entres os 5 primeiros?

Portugal entre os cinco da UE com desemprego mais elevado, diz o Diário Digital. O que se passa é que Portugal tem a quinta taxa de desemprego mais alto. Por acaso está empatado numericamente com a Polónia, havendo por isso até a possibilidade de nem estar nos cinco primeiros e de ser apenas o sexto, mas isso já era pedir rigor a mais.

A questão é, porquê dizer "entre os cinco primeiros" e não apenas "o quinto"? Até ocupa menos espaço (um argumento que já aqui alguém deixou para justificar os títulos enganadores)!

Assim fica sempre aquela dúvida no ar, está nos cinco primeiros mas não se sabe bem qual deles é. Pode ser o primeiro, pode ser o quinto... O sensacionalismo habitual.

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publicado por Miguel Carvalho às 12:18
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Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

Comparar extremos não faz sentido

Impostos: Portugal tem décimos IRC e IRS mais altos da UE, diz o DD.

 

A questão é que este ranking não é feito com os impostos médios cobrados. É feito sim com escalão mais alto dentro de cada imposto. Não sei como é o caso do IRC, mas no  IRS apenas uma pequena fracção de portugueses paga 42%. Não faz pois sentido pegar neste valor como representativo para a realidade nacional. É como dizer que os portugueses são mais altos que os suecos, porque o português mais alto  de todos é maior que sueco mais alto.

Se formos analisar o valor médio da taxa fiscal implícita, chegamos à conclusão que só há 4 países com IRS inferior a Portugal! Algo bem longe do que a notícia faz crer.

 

Aproveito o relatório do Eurostat para acabar com outro mito que aparece constantemente na nossa imprensa, na boca de muitos políticos e comentadores, o mito de que os impostos em Espanha são mais baixos do que em Portugal. Pois bem, a carga fiscal em percentagem do PIB - o modo correcto de aferir o peso fiscal - na economia é mais baixa em Portugal! (A diferença é miníma, mas contrária ao mito).

publicado por Miguel Carvalho às 17:31
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Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Diminuir menos não é crescer

A Rádio Renascença publica um texto sobre os últimos dados do INE, que vem (mal) adaptado de outro texto que aparece na TSF (até pode ser que seja da LUSA). Não se deram ao trabalho de verificar a fonte, trocaram umas palavrinhas e estragaram tudo.

 

A síntese económica de conjuntura revela ainda que o investimento subiu em Abril face a Março diz a RR. Embora este texto não seja claro, o texto original é, esta frase é uma referência à variação homóloga do investimento - o mesmo que é feito na análise do INE. Bom, se tivessem verificado teriam visto que o indicador de FBCF passou de -1,9 para -0,5. Ou seja, em termos homólogos, o investimento continuou a descer em Abril. Desceu menos, mas desceu.

 

O texto da TSF também tem a sua piada: as exportações aumentaram 1,5 por cento, passando de cinco por cento em Março para 6,5. As exportações aumentaram 6,5% e tinham aumentado 5%, logo as exportações aumentaram 1,5%?

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publicado por Miguel Carvalho às 17:39
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Ligeireza

Mais dados sobre o Inquérito Nacional sobre a Violência de Género, e mais uns exemplos sobre a ligeireza com que se enchem páginas de jornais com números falsos.

 

Ioli Campos no SOL: O único tipo de violência contra as mulheres que aumentou foi a agressão psicológica (53,9%); a violência física (22,6%) e a sexual (19,1%) decresceu no período em análise.

 José Bento Amaro no Público: Entre os três tipos de violência analisados no inquérito de 2007, apenas os casos de violência sexual diminuíram. Ainda assim, a sua prevalência em relação ao total apurado é de 27,5 por cento (...) cerca de uma em cada quatro mulheres.

 

1. Só nestas frases já sabemos que há (pelo menos) dois erros, porque os jornalistas contrariam-se duas vezes. (Imagino que a diferença entre os 19,1 e os 27,5, seja explicada pelo primeiro ser a percentagem dentro da violência que foi sexual, e o segundo a percentagem dentro das mulheres vítimas que se queixam de violência sexual, mas como os jornais trocam tudo não o posso confirmar).

2. Há também ali mais um erro, é que aquelas percentagens não são percentagens globais, são apenas dentro das mulheres que se declararam vítimas. Por exemplo, se 2% se declaram vítima, e dentro dessas 50% declaram-se vítimas de violência sexual, apenas 1% das mulheres foram vítimas e não 50% como nos apresentam. Para que não haja dúvidas que é esta a mensagem que é passada, aqui ficam as letras gordas do Público: "Uma em cada quatro mulheres foi molestada sexualmente". Ora, segundo os números na tabela do Público este número foi de 7%! Fazendo as contas com os 27,5%, foram 10%. O título é portanto falso.

 

3. Por último, o nosso erro matemático de estimação. Diz a Eduarda Ferreira no JN, desceu cerca de 10% (...) o número de portugueses que afirmam ter sido vítimas de violência. Ora uma descida de 48% para 38,1%, é uma descida de 21%. Para que a Eduarda fique a pensar: se de 20% para 10% vai metade, e metade é 50%, por que é que a Eduarda teria dito 10% de diminuição?

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publicado por Miguel Carvalho às 10:42
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Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Essas percentagens

Na capa do Público lê-se em letras gordas "Violência contra mulheres desceu para um terço em doze anos".  Repare-se, o título não diz "mulheres vítimas de violência desce para um terço", diz "violência  desce para um terço". Ou seja por cada 100 mulheres que eram vítimas no passado, hoje haveria apenas 33 a ser vítimas, uma redução de 67%.

Lá dentro ficamos a saber que a violência afectava 48%, afectando agora apenas 38%. Uma diminuição de apenas 21%.

 

Bem sei que gostam de usar números nos títulos, mas por favor não confundam os leitores.

publicado por Miguel Carvalho às 16:39
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