Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

Verificar fontes é para idiotas

Portugal lidera quebras na construção, diz o Económico.

Portugal teve a queda mais profunda na construção em 2012, diz o Jornal de Negócios.

 

Polónia cai 23.7%, Portugal 18.2%,  diz-nos o Eurostat - a alegada fonte das notícias. O Eurostat diz ainda que não há dados para Chipre, Irlanda e Grécia.

 

Se é esta a exigência que se tem com coisas que ou são branco ou preto, imagine-se quando há vários tons de cinzento.

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publicado por Miguel Carvalho às 13:43
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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

Trabalhar cansa

A taxa de inflação atingiu o valor mais baixo dos últimos dois anos, dizia-se no Telejornal da RTP, citação (actualizada) literal.

Será que há 2 anos era inferior? Não!

A questão é que o relatório de hoje do INE só tem uma tabela com os últimos 2 anos!

 

Se o jornalista se desse ao trabalho de ir ver a página do INE, verificaria que não há nenhum valor inferior para a inflação nos dados que lá existem, ou seja desde 2002. Algo como 1 minuto de trabalho.

(Se a notícia fosse negativa, lá se diria que foi a "pior inflação de sempre", sendo que o "sempre" normalmente significa "até à data a que me dei o trabalho de verificar". Exemplos disso não faltam aqui no blog.)

 

Se o jornalista se desse ao trabalho de verificar o Eurostat (que só tem o HIPC, um índice muito próximo, mas diferente do IPC), verificaria que só em 1998 houve uma taxa de inflação inferior. Outro penoso minuto de trabalho.

 

Pondo a questão de outra forma, se não foi verificado o valor mínimo (e eu não estou de modo nenhum a dizer que deveria ter sido feito), por que é foi inventado aquele pormenor do "mínimo desde há dois anos"?

 

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publicado por Miguel Carvalho às 20:20
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Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Do baú

Ao arrumar os ficheiros no computador dei de caras com um e-mail enviado à TVI no final de Julho do ano passado, ou seja pouco antes deste blogue ter sido iniciado. Como era de esperar não obtive qualquer resposta ao disparate que então tinha catado, tal como não tinha obtido nas outras ocasiões em que escrevi a um órgão de comunicação social.

Foi em parte por sentir que estes e-mails caiam sempre em saco roto, que propus o blogue aos meus co-autores. Escusado será dizer que os jornalistas passaram a dar uma maior atenção às catadelas. E aqui fica um "viva!" à blogosfera.

 

O e-mail não tem hoje qualquer interesse, fica apenas como mais um registo do desmazelo com que se fazem notícias transmitidas em prime time.


Os órgãos de comunicação têm um papel fundamental na democracia, mas também têm que ter muito cuidado com o poder que possuem. Uma "mentira" dita num jornal da TVI será ouvida por milhões de pessoas, e nunca será desfeita.
Na semana passada numa peça sobre o preço dos medicamentos genéricos em Portugal foi dito, tanto pelos pivots como pelo jornalista da reportagem, que Portugal teria os medicamentos mais caros da Europa. Para chegar a tal conclusão (dada como mais do que segura pelo jornalista) a reportagem referia-se a um gráfico que tinha sido apresentado num estudo, onde se via que Portugal era o único país da Europa onde o peso dos genéricos medido em Euros era maior do que medido em volume de vendas. Um exemplo muito simples para contrariar o raciocínio do jornalista:

Portugal:
medicamento A : preço 10 vendas 10 - genérico A : preço 8 vendas 10
medicamento B : preço 2 vendas 20 - genérico B : preço 1 vendas 1
Peso dos genéricos em EUROS : 37% em volume de vendas : 27%


Espanha:
medicamento A : preço 10 vendas 20 - genérico A : preço 9 vendas 1
medicamento B : preço 2 vendas 10 - genérico B : preço 2 vendas 10
Peso dos genéricos em EUROS : 12% em volume de vendas : 27%

É óbvio que Portugal tem os preços mais baixos, mas o jornalista da TVI teria tirado a conclusão contrária.

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publicado por Miguel Carvalho às 18:52
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Domingo, 21 de Setembro de 2008

Confusão Nível vs Variação nas estatísticas obscuras

Sempre que há uma queda nas estatísticas do crime, e há alguém que se felicita por tal facto, há sempre um chico-esperto que vem criticar tal felicitação, acusando-a de ser ingénua por os dados estatísticos oficiais não incluírem todos os crimes realmente cometidos.

Acho que ninguém nega o facto de haver muito mais crimes do aqueles que aparecem no dados, porque existe muita criminalidade que não é declarada à polícia. Mas esta falha afecta apenas o nível da criminalidade (se é 8 ou 80) e não a variação (se subiu ou desceu). A não existir nenhuma razão para que o nível de não-participação tenha variado de um ano para outro (e nunca vi ninguém a afirmar que isto acontece), a variação dos dados oficiais dão uma credível indicação da variação os valores reais. O chico-esperto é que é ingénuo.

 

Hoje no Expresso online Valentina Marcelino faz isto mesmo a propósito de incorrecta contabilização dos mortos nas estradas (apenas são contabilizados os que morrem no local do crime, deixando de fora os mortos no hospital). A propósito da congratulação por parte do MAI sobre a redução do número de mortos, a Valentina escreve "o Governo sabe que as vítimas mortais de acidentes rodoviários são muito mais [Nível] do que os números divulgados. Mesmo assim, o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, e o presidente da ANSR, Rui Marques, estiveram lado a lado esta semana a anunciar resultados de sucesso em matéria de sinistralidade. Menos 44 mortos até 15 de Setembro que em igual período de 2007 [Variação]. Valores longe de serem os reais."

Ou existe alguma razão paranormal para ter havido mais mortos nos hospitais do que no ano passado (o que Valentina não refere), ou então esta redução de 44 indicia mesmo uma redução real do número total de mortos.

 

Adenda: pelo que percebo do resto notícia, houve até (por coincidência) um aumento do número de mortes nos hospitais. Mas não era claramente isto que levou a jornalista a escrever o parágrafo acima.

publicado por Miguel Carvalho às 15:28
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Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Chumbada

 

Sobre a notícia da Agência Lusa publicada hoje no Público com o título “Chumbos no básico e secundário atingiram este ano o valor mais baixo da última década”:
 
1.       Tudo corria bem com a distinção entre taxas e pontos percentuais, até que lá apareceu a habitual confusão, ao referir-se que no 9º ano se registou a maior queda na taxa de chumbos -- uma queda de 7,5%. O que o(a) jornalista queria dizer era uma queda de 7,5 pontos percentuais.
 
2.       A notícia não indica se os dados se referem apenas a Portugal continental ou se inclui as ilhas. Apenas após uma pesquisa pela informação disponível no website oficial do Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação (GEPE) do Ministério da Educação se conclui que estes se referem, provavelmente, ao continente e ilhas. Isto porque, a referirem-se apenas ao continente, as variações, em pontos percentuais, descritas no texto estão todas erradas.
 
3.       No texto, lê-se apenas sobre a taxa de chumbos. Ora, uma diminuição da taxa de chumbos de um ano para o outro não implica necessariamente uma diminuição do número de chumbos, mas apenas uma diminuição do número de chumbos em relação ao número de inscritos.
 
a.       Se o número de chumbos se mantiver constante e o número de inscritos aumentar, a taxa de chumbos diminui. Mais, a taxa de chumbos pode até diminuir com o número de chumbos a aumentar, bastando que um aumento do número de inscritos seja superior a um aumento do número de chumbos.
 
b.       De facto, extraindo informação do website do GEPE é possível verificar, por exemplo, que em Portugal (continente e ilhas) o número de inscritos no total do Secundário aumentou no ano lectivo 2006/07. Curiosamente, ainda não existe qualquer informação relativa ao número de inscritos no ano lectivo 2007/08, um ano após o início do mesmo.
 
c.        No entanto, no Portal do Governo é possível encontrar uma nota do Ministério da Educação que refere que “neste ano lectivo [2007/08] estão matriculados no ensino secundário 282 188 jovens, mais dois por cento que no lectivo anterior [2006/07]”.
 
4.       Mas então fica a questão: como se explica a discrepância dos valores, especialmente quando é possível calculá-los de diferentes formas? É que aquele número no Portal do Governo não bate certo, em diversos milhares, com nenhum dos números do relatório que é possível retirar do site do GEPE. Isto é importante porque tem efeitos no cálculo da taxa de chumbos (ou de qualquer outra taxa).
 
5.       Relativamente à polémica sobre os exames do 9º ano deste ano e à referência, na notícia em causa, ao Ministério da Educação e à Ministra (“Em Março deste ano, o ME divulgou os números relativos ao ano lectivo anterior, que também já representavam uma evolução positiva. Na altura, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues considerou "notável" a diminuição deste indicador, atribuindo-a a medidas como o plano de acção para a Matemática e o Plano Nacional de Leitura”):
 
a.       A classificação de um aluno no 9º ano é feita de 1 a 5, em que se arredonda qualquer classificação final para a unidade mais próxima. Os exames, esses, valem 30%. Ou seja, um aluno que tenha 3 no final do 3º período, só reprova se obtiver 1 como classificação no exame e um aluno com 2 no final do 3º período, transita se obtiver um 4 no exame.
 
b.       Segundo noticiava o Público em Julho último, “a percentagem de notas de nível 5 (a mais alta) subiu de 1,4 por cento para 8,3 por cento. As classificações equivalentes a Bom (nível 4) dispararam de oito por cento para 21,4. (...) A classificação mais baixa de todas (nível 1), por exemplo, foi atribuída a apenas 3,3 por cento. Em 2007, foram 25 por cento a ter esta nota.”
 
c.        Comparar taxas, sejam elas de reprovação ou de outra coisa qualquer, só faz sentido se for possível comparar níveis de dificuldade das provas. E a melhor forma de averiguar a dificuldade das provas é, provavelmente, perguntando aos alunos, ou pedindo-lhes que realizem uma prova de um ano anterior. Nem precisa de ser a todos, basta uma amostra representativa. A este respeito ver, por exemplo, este artigo no Daily News.
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publicado por Carlos Lourenço às 13:03
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