Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Estagnar... a crescer

Dicionário Texto Editora
Estagnar:
impedir que um líquido corra; fazer estancar; não circular; perder a fluidez; paralisar;  ficar inerte; conservar-se.

O Telejornal da TVI abriu hoje com um bombástico "o FMI prevê uma estagnação da economia portuguesa em 2008". Pouco depois, "o FMI revê em baixa o crescimento económico em Portugal para 1.8%".
Textualmente pode não ter sido exactamente isto, mas cá fica a notícia online para não haver dúvidas: "FMI prevê estagnação da economia portuguesa (...) Em vez de dois por cento, o Produto Interno Bruto deverá crescer 1,8 por cento. É o mesmo que este ano, ou seja, a economia nacional vai estagnar."

Como é que é, como é que é?
Vai estagnar enquanto cresce?
Ou será que cresce estagnada?
Estou confuso.
A TVI na China, num ano em que a economia em vez de 9% crescesse 8%, diria "2008 vai ser um ano de crise", não?



Adenda: O Público também se esforçou no tamanho do dislate, mas não previu tamanha desfaçatez da TVI, e acabou por ficar em segundo. O Jornal da Impresa diz que "FMI prevê travagem da retoma portuguesa em 2008" e mais à frente "a taxa de crescimento não ultrapasse os 1,8 por cento, precisamente o mesmo valor que é estimado para 2007".
Fisicamente uma travagem é um variação negativa do grau de variação de uma dada variável, ou seja a segunda derivada em relação ao tempo. Em português, uma travagem é uma diminuição da velocidade. Em linguagem do povo "oh seu guarda, eu ia a 180, quando vi o radar. Foi então que travei até aos 180".
Pois.
publicado por Miguel Carvalho às 20:50
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Um pequeno detalhe

Podemos ler hoje no DN um artigo onde se dá conta de um estudo "ontem divulgado pela Saer, empresa de avaliação de risco liderada pelo ex-ministro das Finanças, Ernâni Lopes.", sobre a criação de riqueza nas diferentes regiões da península ibérica (sim, Portugal aparentemente é suficiente homogéneo para ser considerado a região da península ibérica com mais população - uma irrisória diferença de 3 milhões de pessoas ou 38% mais que a segunda mais populosa e 73% mais que a média das 4 maiores que lhe seguem; já agora, é a segunda com maior área, mas isso interessa menos).

O estudo não parece estar disponível na internet e o artigo permite entrever algumas pérolas, por exemplo, observações vazias como: a "convergência para o nível de poder de compra médio da União Europeia" dependerá "sobretudo do comportamento do PIB real" (Surpresa!) e terá de haver, em paralelo ao crescimento do PIB, "um crescimento do nível geral preços de acordo com o comportamento da produtividade" (Todos concordamos que se crescesse em desacordo seria mau, mas que significa isto?).

No entanto, o destaque aqui vai para um clássico do jornalismo económico. A produção de riqueza per capita medida em paridade de poder de compra não mede a "qualidade de vida dos cidadãos" e não é um adequado "índice de bem estar", como sugere o jornalista Rudolfo Rebêlo. É importante para ambos, mas o artigo do DN é abusivo.

O Público também publica sobre este estudo. Num trabalho mais polido, onde indica por exemplo a origem dos dados e não faz extrapolações quanto à felicidade dos cidadãos, o artigo vem assinado pela Lusa.
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publicado por Gonçalo Pina às 11:47
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Número record de famílias endividadas na RTP

A RTP noticia esta manhã que chegámos a um novo máximo no número de famílias endividadas em Portugal. A notícia é dita pelo locutor e aparece escrita no ecrã.
Como sempre a verdade está nas entrelinhas. Na reportagem percebe-se que a notícia que é real e deste mundo é o aumento do número de famílias endividadas com pedidos de ajuda à DECO. Ora qualquer um saberá dizer que uma coisa não implica a outra. O número de endividados pode diminuir ao mesmo tempo que os pedidos de ajuda aumenta, basta para isso que tenha havido uma maior percentagem a pedir ajuda, seja por mais divulgação dos serviços da DECO, seja por aumento das dificuldades destes endividados em particular.
Como sempre neste blogue, não estou a afirmar que a situação é boa, é má ou é assim-assim. Digo apenas que temos um meio de comunicação, ainda por cima público, que dá notícias sensacionalistas sem qualquer fundamento.
publicado por Miguel Carvalho às 10:30
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

A manifestação e as sondagens

(mais um artigo, desta feita publicado a 13 de Março de 2007 no então 'Economia' do DN pelo mesmo autor, aqui republicado a fazer novamente jus à génese do 'A Pente-Fino')

 

A manifestação contra as políticas PS organizada pela CGTP no passado dia 2 foi considerada "a maior de todos os tempos", reunindo em Lisboa 120 mil pessoas (dados da PSP). No entanto, o Barómetro da Marktest uma semana antes e o estudo da Eurosondagem no mesmo dia da manifestação, revelavam (1) que as intenções de voto reforçam a maioria absoluta ao PS e (2) a enorme popularidade de José Socrates. Existirá aqui, como sugerem algumas opiniões, algum paradoxo? Analisemos então os dois factos à luz dos conceitos de aleatoriedade e representatividade.

A manifestação não é aleatória, ou seja, os manifestantes não foram (e em rigor nem o podiam ser) escolhidos aleatoriamente. A este respeito, há a considerar, entre outros, um problema de auto-selecção, isto é, existem pessoas com maior motivação e em melhores condições (mais tempo, p.ex.) para participar em manifestações do que outras. Desde logo, reformados e desempregados, e ainda os que estarão sempre disponíveis para qualquer manifestação seja ela qual for, seja porque daí retiram algum prazer ou, como neste caso, por fidelidade/compromisso sindical. E a manifestação não é representativa da população portuguesa, activa ou não. Não o é em termos geográficos nem em termos de estratos sociodemográficos. E afectando ambos, claramente, não o é também em termos políticos: foi uma manifestação da CGTP, a Intersindical apoiada pelo PCP.

Quanto às sondagens, apesar da sua suposta garantia de aleatoriedade, esta não é perfeita. Se mais razões não houvesse, tome-se apenas o simples facto de as listas de onde são escolhidos os entrevistados conterem erros. Ou seja, os portugueses não têm todos a mesma probabilidade de serem seleccionados para a amostra. No entanto, parte desta imperfeição nas sondagens é tida em conta no cálculo do erro amostral e na estipulação de um intervalo de confiança. Mas o mais importante é que as sondagens (ou qualquer estudo baseado numa amostra) sejam representativas da população em análise. E à partida não existe razão para se suspeitar que o não são.

Assim, não parece existir aqui nenhum paradoxo. Não, como erradamente se possa pensar, por uma diferença na magnitude dos números, isto é, o facto de 120 mil manifestantes serem uma minoria quando comparados com o total de portugueses, mas por uma diferença no que os números representam. Os manifestantes não são representativos da população portuguesa (nem aleatórios), enquanto as sondagens, mesmo que baseadas num número de entrevistas incomparavelmente menor - cerca de mil -, assentam em pressupostos estatísticos que permitem generalizar os resultados amostrais para a população em causa.

Se deve ou não prestar-se atenção a qualquer um dos factos e quais as ilações que deles se podem retirar, essas são outras questões.

publicado por Carlos Lourenço às 13:35
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Uma questão de Português e Matemática

(artigo publicado a 5 de Setembro de 2006 no então 'Economia' do DN pelo mesmo autor, aqui republicado a fazer jus à génese do 'A Pente-Fino')

 

Na passada sexta-feira, a primeira página do DN tinha a seguinte manchete: "Exames fazem disparar reprovações no 9.º ano", referindo-se ao ano lectivo 2004/05 em comparação com 2003/04. Vejamos se assim é.

Desde o ano passado, os alunos do 9.º ano têm de fazer exame nacional a Língua Portuguesa e a Matemática, a nota do qual (de 0 a 100%) é convertida para uma escala de 1 a 5 segundo uma tabela definida pela tutela. É esta classificação do exame (de 1 a 5) que em 2004/05 teve um peso de 25% na nota final daquelas duas disciplinas e que este ano pesa 30% (o restante é a nota do 3.º período). Assim, um aluno reprova no 9.º ano se tiver a) nota final inferior a 3 a Língua Portuguesa e Matemática, ou b) nota final inferior a 3 em três disciplinas, ou c) em duas disciplinas (que não aquelas duas em simultâneo) e Não satisfaz na área de projecto.

Ora, acontece que em 2004/05 os exames do 9.º ano, a valerem 25%, não podem ter reprovado ninguém, simplesmente porque ninguém com positiva no 3.º período (3 a 5) passa a negativa por causa do exame. Quem tem um 3 no 3.º período, mesmo que tenha 1 no exame, fica com 2,5 como nota final, o que arrendondado dá 3 e o aluno não reprova.

Para os melhores alunos, de 4 e 5, o máximo que lhes poderá acontecer é descer um valor. Segundo o relatório do Gave sobre os resultados da 1.ª chamada do exame de Matemática, p. ex., em 2005, a grande maioria dos alunos com 4 e 5 no 3.º período obteve 3 ou mais no exame, conservando assim a sua nota interna. Raros foram os alunos com 4 que obtiveram 1 no exame (nenhum aluno com 5 obteve 1), descendo assim a sua nota final para 3.

Os exames, a valerem 25% (ou 30%), eventualmente até ajudam a passar de ano. Aos alunos com 2 no 3.º período (em vias de reprovarem), os exames permitem chegar ao 3 caso obtenham 4 ou 5 no exame, o que em 2005 não aconteceu. Por fim, os alunos com 1 no 3.º período estão fatalmente reprovados à disciplina, com ou sem exame. Finalmente, em 2006, mesmo com exames a valerem 3o% da nota final, só se um aluno tiver 3 no 3.º período e 1 no exame é que reprova à disciplina (em 2005 aconteceu a cerca de 15% desses alunos).

Conclusão: os exames do 9.º ano de 2005 a valerem 25% não terão causado uma única reprovação adicional em relação a 2004. E se, como refere a notícia, a taxa de retenção e desistência do 3.º ciclo em 2004/05, de 19,3%, foi a mais alta desde há nove anos, mesmo assim apenas dois pontos percentuais acima da taxa em 2003/04 e um ponto percentual acima da média dos nove anos (em 2001 e 2002 a taxa esteve acima dos 19%), não foi devido aos exames.

Parece então que estamos mais uma vez perante um problema de informação, com a agravante de se notarem, da parte de vários intervenientes, interpretações menos correctas e erros de aritmética elementar, que a serem cometidos por um aluno o levariam a reprovar.

publicado por Carlos Lourenço às 13:28
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Sábado, 6 de Outubro de 2007

O DN sabe contar

O DN alerta-nos hoje na capa para o facto de o texto do novo tratado constitucional conter a palavra Europa 1100 e tal vezes, mas são apenas 4 as vezes que refere "Portugal". O que o DN quer dar a entender daqui é óbvio, e é mais uma prova da demagogia e do mau jornalismo praticado na Avenida da Liberdade.
Por curiosidade a Constituição Portuguesa refere ZERO VEZES a palavra "Lisboa" e ninguém dirá que Lisboa é prejudicada em relação a outras regiões.
publicado por Miguel Carvalho às 14:10
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Quinta-feira, 4 de Outubro de 2007

Descer no ranking da corrupção significa descer no ranking da corrupção

António José Teixeira na SIC disse há instantes na SIC que Portugal tinha descido algumas "posições no nível da  transparência (sic)"  (referindo-se provavelmente ao ranking de corupção feito pela Transparency International), o que  "quer dizer que o fenómeno se agravou".
Este simplismo com que são tiradas estas conclusões é revoltante. Por exemplo, em termos de PIB per capita sabemos que Portugal desceu algumas posições no ranking nos últimos 10 anos. Passa pela cabeça de alguém concluir que o PIB per capita desceu neste período??
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publicado por Miguel Carvalho às 13:21
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Quebra de 18% nos carros comerciais

Este é um dos títulos da capa de hoje do DN, com o intuito óbvio de chocar e chamar a atenção.
1. Lá dentro a notícia começa com um sensacionalista "As vendas de carros voltaram a cair", dando como exemplo a queda de 2% nos automóveis ligeiros comparando Setembro de 2007 com Setembro de 2006. Ora uma variação de 2% numa variável de fluxo (é contada do zero cada mês) contabilizada em termos mensais, é algo literalmente insignificante. É como comparar a  quantidade de chuva de hoje e a de 4 de Outubro de 2006 e concluir que o clima está  a mudar porque hoje choveu mais.
2. Diz ainda o texto que houve uma antecipação das compras dos comerciais antes de Julho, devido a subidas fiscais! (Aposto que nenhum jornal referiu o enorme aumento das vendas, que deve ter havido em Junho, porque essa notícia não "vende"). Ou seja grande parte das compras que poderiam ter sido feitas nos meses a seguir a Junho foram antecipadas para antes de Julho, e assim não faz sentido comparar nenhum destes meses com o mês homólogo de 2006.
3. Há também a "crise" (expressão do DN) com uma queda de 55% nos pesados,... porque em Setembro de 2006 houve um aumento  de vendas devido à introdução de novos motores! (Aposto também que nenhum jornal referiu na altura este aumento como um excelente sinal do crescimento económico). Mais uma vez não faz sentido comparar valores com Setembro de 2006.
4. Ficamos ainda a saber que o maior fatia de mercado (vendas a particulares) teve um aumento de 4,8%. Claro que isto não podia ser dito assim, por isso o DN decide acrescentar que "muitos recorreram a leasing", sem apresentar dados, nem fontes, nem dizendo se foram mais ou menos do que no passado.
5. Por último afirma que as expectativas não são muito "animadoras" para o sector, porque só se espera um aumento de 0,5% nas vendas. Leu bem, um aumento.

Pior que o sensacionalismo com que são tratados os dados, é o facto do próprio DN não se aperceber que os próprios dados que fornecesse contrariam o tom da notícia.
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publicado por Miguel Carvalho às 11:35
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Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

O dólar e o custo de vida

O Público tem disponível na secção de Economia da sua edição online um inquérito bastante curioso. Perguntam-nos eles se achamos que o euro forte penaliza o custo de vida das famílias. HÃ?! Desculpem lá, não entendi.

 

Todos sabemos que o Euro tem valorizado progressivamente em relação ao dólar nos últimos tempos. Lembram-se há uns tempos de se falar em "paridade", conceito que na altura serviu, um pouco abusivamente na minha opinião, para dizer que um dólar se transaccionava nos mercados de câmbio ao preço de um euro? Pois bem, há cerca de um ano um euro já andava pelos 1.25 dólares e hoje, segundo o Banco de Portugal, já comprava 1.42 dólares. Ora, quem consome bens importados dos Estados Unidos (ou doutro país, se os preços estiverem denominados em dólares) sabe perfeitamente que paga menos euros por eles.

 

Claro, quem sai mal desta história são os exportadores que, vendo os preços dos seus produtos aumentados em dólares por via apenas da taxa de câmbio, têm mais dificuldades em colocá-los no mercado americano. Mas isto nada tem a ver com a pergunta, que se refere explicitamente às famílias e ao seu custo de vida.

 

Estará o Público a confundir "euro forte" com inflação na área euro? Talvez. Ou estarão eles completamente conscientes da pergunta e querem apenas induzir os leitores em erro. Parece que sim... à hora que escrevo, 510 pessoas (63% do total) já tinham dito que sim!

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publicado por Pedro Bom às 22:42
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Um, dois, três

O Público fazia ontem um exercício de futurologia afirmando que nesse dia haveria a maior manifestação de sempre da polícia, que haveria 6000 polícias na rua. Hoje na capa refere 3500. A EuroNews contou 1000.
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publicado por Miguel Carvalho às 09:15
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