Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Se mete percentagens dá disparate III

Leio aterrorizado na capa do Expresso de ontem: "Câmaras de vigilância cresceram 3000% em seis anos". Depois, no texto, o jornalista Filipe Santos Costa torna o valor ainda mais preciso: 3080%. E dão os números que servem de base a tal conclusão: parece que em 2000 eram 67 e em 2006 passaram para 2064. Clarifico: 67 e 2064 autorizações para instalação de câmaras, não câmaras propriamente ditas. As câmaras estarão certamente em número superior às autorizações, quer porque em Portugal gosta-se pouco de autorizações quer porque certamente já havia câmaras instaladas quando as autorizações de 2000 foram solicitadas.

Adiante, porque o que me faz escrever é antes a astronómica percentagem realçada na capa. Como já foi escrito neste blog, o uso da percentagem é descabido em situações em que o ponto de partida está próximo do zero. No dia em que o primeiro português comprou um automóvel, a percentagem de variação do número de automóveis comprados por portugueses foi infinita. Se de câmaras de vigilância falamos e se dizemos que passou de 67 para 2064, ir logo a seguir calcular a percentagem de variação só pode ter como objectivo encher a capa com números.

Mas, admitamos que é mesmo isso que queremos fazer: encher a capa com números. Ao menos façamo-lo bem feito. O jornalista do Expresso acha que a taxa de variação percentual entre 67 e 2064 se calcula dividindo o segundo pelo primeiro e multiplicando depois por 100: (2064/67)*100=3080%. Para sua conveniência, aqui deixo a fórmula geral de cálculo da taxa de crescimento percentual (tcp) de uma variável que assume o valor x em determinado momento no tempo e o valor y num momento posterior: tcp=[(y-x)/x]*100. Substituindo x por 67 e y por 2064 chega-se a 2980%. Penso ser suficientemente grande para encher a capa do Expresso, não era preciso aldrabar. Por favor, haja quem faça chegar isto ao Filipe Santos Costa.

publicado por Pedro Bom às 12:12
link | comentar | ver comentários (2) | favorito

Disparate institucionalizado

Segundo uma investigação profunda a que tivemos acesso ainda há pelos menos três pessoas em Portugal que acreditam nas previsões avançadas pelos governos para a inflação média anual.

Previsão do Orçamento face a Inflação Real (tirada do Correio da Manhã)
1998 – 2,0% / 2,8%
1999 – 2,0% / 2,3%
2000 – 2,0% / 2,9%
2001 – 2,8% / 4,4%
2002 – 2,75% / 3,6%
2003 – 2,5% - 3,3%
2004 – 2,0% / 2,4%
2005 – 2,0% / 2,3%
2006 – 2,2% / 2,3%
2007 – 2,1% / 2,4%

(Já agora um pequeno comentário ao que é feito na notícia, que para chegar ao salário médio mensal em Portugal divide o salário médio anual por 14. De facto é prática comum os portugueses receberem o salário 14 vezes por ano, e é a esse catorze avo que as pessoas se referem quando falam no seu salário. Ou seja nada a apontar. Mas ao compararmos com salários no resto da Europa, o nosso já é suficientemente baixo e não precisamos de sacrificá-lo ao dividi-lo por 14. Em termos estatísticos a divisão por 12 é que é correcta.. Ainda é um aumento de 17%, de 840 para 980 no caso do salário médio.)

Adenda: (16 Janeiro) ao escrever outro post, notei que aquela tabela está errada. Em 2006, a inflação prevista no OE era de 2,3%. E agora sabe-se que a inflação de 2007 foi de 2,5%.
Principais Tags: ,
publicado por Miguel Carvalho às 01:09
link | comentar | favorito
Sábado, 15 de Dezembro de 2007

É isto o nosso jornalismo de referência?

Na semana em que se assinou o Tratado Reformador, quais são as grandes questões que importa conhecer?  A perda de soberania dos Estados mais pequenos? A melhoria da eficácia na tomada de decisões?  Uma acção mais eficaz no palco internacional?

Não. Nada disto interessa. O que interessa é se vai haver referendo ou não! Isto sim é a grande questão.

O jornal é o Expresso e não há mais nada a dizer!

Ou talvez haja: É com este jornalismo de caca que podemos contar para esclarecer a opinião pública se a decisão for no sentido da realização do referendo?  

Principais Tags: ,
publicado por Oscar Carvalho às 11:15
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

5000%

Prejuízos dos hospitais públicos aumentaram 5000% no Diário Digital
Ena 5000%!!
Como já escrevi aqui, não faz sentido usar percentagens nestas situações, porque depois temos valores disparatados como este sem sentido nenhum. Nem com o disparate à frente, o jornalista foi capaz de se aperceber dele. Se o prejuízo passasse de um cêntimo para 10 euros, seria um aumento de 100000%... mas seriam apenas 10 míseros euros...
Principais Tags: ,
publicado por Miguel Carvalho às 15:44
link | comentar | favorito

Uma minoria...

Hoje no Diário Económico, Luís Rego escreve sobre o referendo irlandês de ratificação do Tratado de Lisboa. O título do texto é "Referendo na Irlanda ameaça Tratado de Lisboa".
Eh pá! Há aqui uma ameaça!
O subtítulo "Portugal corre o risco de ver toda a pompa e circunstância da cerimónia de hoje ir por água abaixo se o referendo na Irlanda chumbar o novo Tratado europeu."
Bolas! Corremos um risco!
Mais à frente no texto "Numa sondagem conduzida em Novembro, apenas um quarto dos irlandeses dizia sim ao novo Tratado".
Apenas um quarto?! Isto nunca vai ser aprovado!!
Lá para o fim do texto... "Por enquanto, ainda há 62% de indecisos". Será que o Luís se "esqueceu" de descontar os indecisos? Podemos saber aqui que é esse o caso, e que apenas 13% dos irlandeses se expressaram contra. Ou seja dos 38% com opinião, 66% são a favor do tratado! Uma maioria absolutíssima!
O único nome que isto tem é aldrabice. Em todas as sondagens são descontados os indecisos, ou equivalentemente os indecisos são distribuídos do mesmo modo que os decididos. Se não fizermos isto, teríamos o PS com uns 25% de intenções de voto. ("Uma gigantesca queda do PS", escreveria o Luís). O PSD com uns 18%. Uhm , isto parece estranho). O BE, o PCP e o PP com uns 4%... claramente alguma coisa estaria errada.

P.S. apesar de não saber muito de sondagens, julgo haver mais métodos para tratar dos indecisos. "Força-los" a indicar a sua inclinação seria um, outro seria estimar a distribuição dos indecisos na altura da votação com dados de eleições anteriores. Mas nada disto invalida a minha crítica
publicado por Miguel Carvalho às 10:30
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

Beethoven no Algarve! Alive?

Os títulos condensados têm a intensão óbvia de captar a atenção do leitor. Há que maximizar o conteúdo informativo e minimizar o suporte É uma inevitabilidade pois vivemos num tempo em que não há tempo.

Ás vezes, este esforço não é lá muito bem sucedido. Se o leitor não entende de imediato aquilo que o autor pretendeu ser subentendido, se lermos as frases literalmente, o resultado é um non-sense total.

Algumas frases são inóquas, estilo “Kosovo divide a Europa”; “Lisboa investiga a morte de seguranças no Porto”, mas há outras que têm o mérito de nos fazer sorrir: Semanário SOL: “Estado apoia Oliveira até aos 100”  Pergunto eu: Porque não até aos 120?

SIC ONLINE:  “Beethoven no Algarve”. Pergunto eu: de férias ou em tournée?

publicado por Oscar Carvalho às 17:43
link | comentar | favorito
Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Galaico-portuguesices

Como diz o entrevistado com muita razão, em Portugal sabe-se muito pouco dos nossos irmãos galegos. Eu acrescentaria que se sabe pouco da nossa história comum e por consequência da história de Portugal.
O "tradutor" (não faz muito sentido chamar tradução do galego para o português) da reportagem é um excelente exemplo disto chegando ao ponto de confundir Galécia (província romana onde se encontrava todo o Norte de Portugal) com Galiza (por volta do minuto 2:40).
Principais Tags: ,
publicado por Miguel Carvalho às 21:54
link | comentar | ver comentários (15) | favorito
Sábado, 8 de Dezembro de 2007

A SIC está eufórica!

Para a SIC Online a "Direita está a subir" . 

A peça, devidamente ilustrada com uma fotografia de um Filipe Meneses triunfante, resume a última sondagem da Eurosondagem feito para SIC, Expresso e Rádio Renascença.

Lá se diz que: "as intenções de voto dos portugueses no PS caíram quase um e meio por cento (- 1,3%) e o PSD está agora mais perto do PS, com 32,1%, tendo subido seis décimas no último mês." 

Além do erro habitual  -  confundir percentagem com pontos percentuais - vislumbro um indisfarçado "contentamentozinho"  que devia ser mais comedido num orgão de comunicação que pretende alardear isenção.

Já agora! Não percebo tanto triunfalismo: O PS desce 1,5 pontos percentuais o PSD sobe 0,6 pontos. Mas já viram o que vem na ficha técnica? O erro máximo da Amostra é de 3,05%, para um grau de probabilidade de 95,0%.

publicado por Oscar Carvalho às 00:04
link | comentar | favorito
Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

Público peca por excesso de optimismo

(Tenho sempre criticado a falta de rigor do Público em casos em que aparentemente os números são esticados até dar a pior notícia. Ao menos hoje faço o contrário, já é uma novidade.)

"Portugal vai crescer em 2008 mais do que a média europeia" diz a capa de hoje em letras grandes. Ora ao ler o texto fica-se a perceber que "média europeia" não se refere à Europa, nem sequer à União Europeia, mas sim apenas à Zona Euro! A Europa tem 48 países, a UE tem 27 e a zona euro 13!
Admitindo que estamos a falar apenas da UE então o que está escrito é muito provavelmente falso. Das previsões que encontrei para países da UE fora da zona euro, e à excepção do Reino Unido que tem uma previsão igual à nossa, todos os valores eram bem mais altos do que os portugueses.
Pior, a notícia nunca poderia ser verdade porque a OCDE nem publica previsões para o crescimento da Europa nem sequer da União Europeia, já que há países dos 27 que não são analisados.
Principais Tags: ,
publicado por Miguel Carvalho às 10:21
link | comentar | favorito
Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

Luís Filipe Menentes

Toda a gente manda calinadas verbais destas -- e o autor destas linhas não escapa -- mas o Menezes atirou uma ao melhor nível de um João Pinto ou de um Gabriel Alves. Diz ele, a propósito de aeroportos: "[os investimentos a serem feitos no aeroporto da Portela deverão dar] resposta a outros [problemas] que surjam complementarmente e tendencialmente que essa solução aparentemente deve ser tendencialmente na margem sul" (sic). Onde, em Alcochente?

Principais Tags:
publicado por Pedro Bom às 22:06
link | comentar | favorito

Autores

Pesquisa no blog

 

Janeiro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts Recentes

O DN a começar o ano em p...

Os conhecimentos mais bás...

Que nome bué da louco, "h...

Para bom observador, meia...

O Luís Reis Ribeiro preju...

Um título, dois erros

Bomba Atómica: o Dinheiro...

O Público anda com a cabe...

Uma pequena história

Verificar fontes é para i...

Arquivo

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Março 2015

Fevereiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Principais Tags

correio da manhã(13)

desemprego(15)

diário digital(24)

diário económico(9)

dn(82)

economia(65)

estatísticas(22)

expresso(26)

inflação(13)

lusa(15)

matemática(12)

percentagens(26)

público(102)

publico(9)

rigor(9)

rtp(20)

rudolfo(16)

salários(10)

sensacionalismo(135)

sic(11)

todas as tags

Contacto do Blogue

apentefino@sapo.pt

Outros Blogs

subscrever feeds