Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

É cedo, é cedo, é cedo, mas para escrever disparates nunca é cedo

Não sei o que dizer de jornalistas que escrevem pérolas destas. A propósito da revisão em baixa do crescimento do PIB pelo FMI, escreve alguém do Público (ou da Lusa) no primeiro parágrafo: "João Ferreira do Amaral disse hoje que 2008 será um ano de desaceleração económica europeia e portuguesa "significativa", mas defendeu que ainda "é muito cedo" para dizer que Portugal vai crescer abaixo da Zona Euro".

No terceiro parágrafo, nova citação, mesmo conteúdo: "É quase certo que a descaleração económica europeia e portuguesa [em 2008] vai ser significativa, isto é previsível. Mas é cedo para dizer que Portugal vai crescer abaixo da Zona Euro".

E o que escreve este(a) jornalista no segundo parágrafo? Isto: "O economista falava à agência Lusa após o Fundo Monetário Internacional (FMI) ter revisto em baixa (de 1,8 para 1,3 por cento) as previsões de crescimento da economia portuguesa para este ano, antecipando que Portugal volte a crescer abaixo do ritmo dos seus parceiros da Zona Euro pelo sétimo ano consecutivo."

É que nem vale a pena o João Ferreira do Amaral insistir que é cedo para dizer se crescemos mais ou menos do que a média da Zona Euro, o(a) jornalista simplesmente não ouve/não sabe/não quer saber/não liga/faz que não liga/não lê a peça depois de escrever/não gosta de escrever três coisas certas consecutivamente (riscar o que não interessa). Ou então inventou uma nova fórmula de jornalismo: escreve-se uma coisa certa, depois um disparate, depois a mesma coisa certa, e ninguém topa o disparate...

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publicado por Pedro Bom às 22:20
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Resposta do Provedor do Público II

Recebi uma resposta do Público referente a este post. A resposta da jornalista pode ser lida aqui. Resumo das minhas críticas, resposta da jornalista e minha contra-resposta:

No texto lê-se "acréscimo de emprego registado em 2006 - a primeira subida em três anos", quando no gráfico houve vários crescimentos. Afinal o gráfico da notícia referia-se a emprego total por conta de outrem e o texto da notícia referia-se a emprego "total total" (por conta de outrem e por conta própria). Infelizmente não tenho o original (se alguém tiver assinatura, agradeceria muito que me deixassem aqui o texto) para verificar se o leitor foi induzido em erro. De qualquer modo, mesmo o emprego "total total" teve um aumento ligeiro em 2004 (que a jornalista diz que é estagnação) e uma estagnação em 2005, logo chamar-lhe "a primeira subida em três anos", induz o leitor em erro.

Na notícia diz-se que há uma tendência da "criação de emprego (..) ser feita sobretudo via contratos a prazo", quando o gráfico mostra exactamente o contrário de 2002 a 2005. A resposta não é muito clara, mas passa por dizer que o número de novos empregos em 2006 eram maioritariamente a prazo, sem nunca referir o que aconteceu de 2002 a 2005. Na realidade o número de empregos a prazo destruídos foram mais que os criados, e empregos sem termo foram mais os criados que os destruídos. Logo de 2002 a 2005 o emprego foi criado (em termos líquidos) via contratos sem termo!
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publicado por Miguel Carvalho às 12:22
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Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Para baixo o disparate também funciona

Leio no Público on-line: "O segmento do mercado externo melhorou, embora tenha continuado a cair: recuou um por cento, depois de uma queda de 2,9 por cento no mês anterior, um sinal de que as exportações continuam a perder ritmo". E interrogo-me: se as "exportações continuam a perder ritmo", como é que "o segmento do mercado externo melhorou"? Se "caiu", como é que "melhorou"? Uma coisa melhora só porque piora menos? Como é possível atropelar tanta lógica com uma frase tão pequena?
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publicado por Pedro Bom às 15:45
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Jornalistas qualificados há muito que deixaram o DN

Empregados qualificados estão a deixar o Estado diz hoje em letras gordas a capa do DN, graças a Manuel Esteves.
Ora erros de raciocínio:

1. A amostra a que o DN se refere é pequena, 103 quando o Estado tem centenas de milhar de trabalhadores.
2. Poderia ser que fosse representativa (o que salvaria o ponto 1), mas é uma amostra enviesada porque se refere afinal apenas ao Ministério da Agricultura.
3. A mostra também é enviesada porque não se tratam de saídas normais, mas resultam de um processo extraordinário no quadro da mobilidade especial, processo este que começou... no Ministério da Agricultura!
4. Fala-se em "sete técnicos superiores, (...) 12 médicos veterinários e 12 engenheiros técnicos agrários", mas nunca em percentagens dentro de cada categoria! Quem nos diz que a percentagem de "empregados qualificados" a sairem não é mais baixa do que a percentagem de "não-qualificados" a sairem?? Ao ser este o caso, acontece exactamente o contrário do que diz o título.
5. Imaginando que todos os outros pontos estivessem correctos, não será que poderíamos estar aqui perante a saída de empregados que mais recentemente entraram nos quadros - o que faria deles mais qualificados (em termos burocráticos) devido à sua idade? Ou seja não poderia ser o factor antiguidade nos quadros que está ali espelhado? Manuel Esteves não o verifica. Ao ser esse realmente o factor principal, bem se poderia escrever na capa "empregados que mais saem à noite deixam o Estado", "empregados com menos netos e filhos deixam o Estado" ou outra parvoíce do género. Quem diz idade, diz outra coisa qualquer.
6. Os funcionários em causa nem sequer são propriamente trabalhadores, porque estavam todos colocados em mobilidade especial. Enquanto o título leva a entender que são os empregados, que estando numa situação normal de emprego, decidem sair do Estado.
7. A meio do texto uma pérola: "Os melhores vão-se embora? Esta é uma pergunta à qual ainda não se pode responder". Então?! Afinal nem o próprio Manuel parece sustentar a afirmação na capa e no título interior!
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publicado por Miguel Carvalho às 11:35
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Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Preparem as peças por favor

Mais um exemplo de peças na televisão, onde o jornalista não se deu ao trabalho de preparar o assunto sobre o qual fala, neste caso o acordo ortográfico na RTP.
Enquanto o jornalista dizia que "os portugueses se tinham que habituar às novas grafias" mostravam-se na imagem as palavras "polémico/polêmico" e "cómico/cômico"... que são exemplo de grafias que se vão MANTER!! (Ou seja com versões diferentes para acomodar a fonética portuguesa e a brasileira).
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publicado por Miguel Carvalho às 20:08
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Já nem sei como explicar isto a este gente

Será assim tão difícil distinguir crescimento constante de estagnação? Não é óbvio que ter 2, 4, 6, 8, 10, etc... não é o mesmo 2, 2, 2, 2, 2, etc..? Aparentemente para os jornalistas do Portugal Diário não.

«Não é de esperar uma melhoria da evolução económica (portuguesa) em 2008», pode ler-se no relatório trimestral...

Reparem, está lá escrito "melhoria da evolução" da economia e não "melhoria" da economia apenas. O que a frase diz é que não se deve esperar um crescimento ainda mais rápido em 2008, estando implícito que a melhoria (o crescimento) será a mesma que em 2007. O que escreve o Portugal Diário no título? Êrnani Lopes diz que economia não vai melhorar em 2008.
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publicado por Miguel Carvalho às 19:38
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Depois do disparate do pão, agora o café

Um hino aos argumentos económicos idiotas, estas declarações de José Manuel Esteves, da Associação da Restauração e Similares de Portugal.

O preço duma bica vai custar um euro, segundo José Manuel Esteves, da Associação da Restauração e Similares de Portugal (ARESP). Segundo o secretário-geral da Associação, a subida em 30% do preço dos grãos de café

1. Tal como o trigo no pão, o preço do grão de café é uma pequeníssima parte do preço final do café servido. Rendas, impostos, mão-de-obra, electricidade, água, transportes, os custos da própria indústria do café que não vende os grãos em contentores à restauração, etc... etc... etc...

2. Mesmo que fosse 100% do preço, um aumento de 30% em 55 cêntimos, não chegaria aos 75 quanto mais a um euro.

Apesar de os preços serem liberalizados, o custo médio ronda os 55 cêntimos, o que significa que os aumentos vão duplicar a factura para o consumidor.

3. Aqui a idiotice é do jornalista Pedro H. Gonçalves... o que é que a liberalização do preço tem a ver com a "factura para o consumidor"? Que aliás nem nota que dos 30% passou para a duplicação... ou seja mais 100%.

(...) acrescentando que o aumento previsto não se deve à escassez da matéria-prima a nível mundial. "Há excedentes de café no mercado. O nosso problema são as bolhas de especulação que nem produtores nem consumidores controlam. Essas inflacionam os preços", salientou.
José Manuel Esteves referiu que a entrada de fundos de investimento anónimos "estão a comprar empresas de torrefacção em Portugal porque descobriram que é um grande negócio". Manuel Esteves deixa o aviso: "Os consumidores que se preparem"

4. Não sei se o raciocínio original era mesmo este que o jornalista apresenta... mas qual é o processo paranormal que leva dos investimentos em torrefacção aos aumentos dos preços?

5. Depois destas citações bem fundamentadas, qual é o título que o Pedro decide dar à notícia? Bica vai custar 1 euro. Mai nada!
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publicado por Miguel Carvalho às 18:25
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Buracos negros...

Os meios de comunicação comuns são uns peritos em disparates quando se trata de ciências naturais, e infelizmente têm sido poucos os exemplos que têm passado aquilo pelo blogue.
Hoje o Portugal Diário diz a propósito de um buraco negro que "o núcleo foi tão intensamente compactado que ficou com um diâmetro de apenas 24 km".
Não faz sentido medir o tamanho de um "núcleo" de um buraco negro! Classicamente até se chama(va) singularidade ao centro de um ponto negro, exactamente porque é um ponto infinitamente minúsculo. Ou seja nem 24mm quanto mais 24km. (Há sim raios associados aos buracos negros, mas não do seu núcleo).
Também é dito que "o buraco negro aparece quando acaba o combustível da estrela que lhe deu origem e o seu núcleo implode, encolhido pela sua própria acção gravitacional".
Bom, os "combustíveis" não dão origens a estrelas nem o "fim" do "combustível" implica a criação de um buraco negro, mas enfim.
publicado por Miguel Carvalho às 13:56
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Terça-feira, 1 de Abril de 2008

A notável capacidade de reproduzir disparates sobre o IVA em poucas linhas

O Editorial do Expresso do último Sábado consegue a proeza de conter em poucas linhas a maior parte dos disparates que têm sido ditos por aí desde que o Governo anunciou a descida do IVA para 20 por cento. Ora vejamos:

1. O erro habitual: "O anúncio da baixa do IVA em um por cento do IVA". Mais uma vez, confunde-se "por cento" com "ponto percentual". Já se tornou um hábito, ninguém liga. Em percentagem, o IVA descerá quase 5 por cento ((1/21)*100=4.76). O que é o mesmo que dizer que a taxa de IVA descerá 1 ponto percentual.

2. "Mas, no geral, a população reage com indiferença. Os bens essenciais, como o pão e o leite, sofreram aumentos de mais de 10% nos últimos meses. Os combustíveis é o que se sabe. Definitivamente, a baixa de 1% no IVA não se fará sentir no bolso dos consumidores". Deixem ver se percebi. Como há para aí produtos cujo preço sobe bastante, então um ponto percentual a menos de IVA não se nota nada. Ora, eu noto. Por um bem com preço-base de 100 euros, eu pagava 121 euros. Passarei a pagar 120 euros, pelo que poupo um euro. Se o preço deste bem se mantiver no próximo ano, eu continuarei a poupar esse euro em relação à situação presente de IVA a 21 por cento. Mas se o preço-base deste bem aumentar escandalosamente 10 por cento, para 110 euros, eu pagaria então 133.1 euros. Com o IVA a 20 por cento, pagarei apenas 132 euros, pelo que poupo ainda mais: 1.1 euros. Não se faz sentir no bolsos dos consumidores? No meu faz.

3. "Ninguém sentirá benefícios, salvo talvez algumas empresas". Outro disparate. Todo, mas mesmo todo, o dinheiro que o Estado deixará de receber devido à descida do IVA será um benefício dos privados. Num dos extremos (sectores pouco concorrenciais), o preço final dos produtos ficará inalterado e as empresas apropriar-se-ão do valor correspondente à descida do IVA. No outro extremo (sectores mais concorrenciais), o preço final descerá e o benefício irá integralmente para os consumidores. Mais para um lado ou mais para o outro, a realidade estará algures entre estes dois extremos. Mas, consumidores ou produtores, serão sempre os privados a beneficiar da totalidade dos efeitos desta descida.
Resta saber como serão distribuídos.

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publicado por Pedro Bom às 15:19
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