Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Pão para a boca

O problema com títulos e notícias simplistas (incorrectas?) é que, muito provavelmente, elas geram na população comentários e raciocínios ainda mais simplistas, passando assim ao lado da oportunidade de darem a perceber a realidade que nos rodeia e de educarem.

 

Dar como título à noticia sobre a demissão do primeiro-ministro tailandês, após um tribunal ter concluído que podia haver conflito de interesses, "Primeiro-ministro da Tailândia é demitido por apresentar programa de culinária na televisão", como faz hoje o Público, é passar ao lado do fundamental.

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publicado por Carlos Lourenço às 10:18
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Assim, de repente, seremos sempre os últimos

No Público de hoje, mais um exemplo a provar que não são as restrições sobre o espaço reservado aos títulos que justificam certas opções. No título desta notícia, sobre os resultados do estudo "Education at a Glance", reza que "Portugal é o país da UE que menos tempo dedica à língua e à Matemática". Ao ler-se o artigo, fica-se com a sensação de que se puxou a corda.

 

Parece que afinal a coisa só se refere ao 2o ciclo (5o e 6o anos), e, criticamente, apenas em relação "à língua". Isto, porque, como escreve a jornalista, "no 3o ciclo (7o, 8o, e 9o anos) apenas a Holanda apresenta uma percentagem de carga horária inferior", e, no 2o ciclo, "as escolas irlandesas dedicam tanto tempo à disciplina [Matemática] como as portuguesas".

 

Mais, o texto refere apenas a proporção de horas dedicadas às 2 disciplinas. Logo, não é necessariamente verdade que, mesmo no tempo dedicado "à lingua" (em termos absolutos), sejamos os últimos. Aliás, é referido que no 2o ciclo o número de horas obrigatórias dos alunos portugueses é mais elevado do que a média.

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publicado por Carlos Lourenço às 09:27
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Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Pois demonstra

Sobre os dados das contas nacionais anunciados pelo INE, escreve-se hoje no DN, entre outros exemplos coloridos, o seguinte:

 

"(...) Ao mesmo tempo, demonstrando que os portugueses estão de bolsos vazios, as importações cresceram (em termos reais) parcos 3,3%."

 

Escrever uma notícia sobre as contas nacionais deve ser uma tarefa aborrecidíssima, concordo. Mas usar opiniões pessoais de tons sensacionalista e pessimista, e, muito provavelmente, incorrectas, não parece ser uma boa solução.

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publicado por Carlos Lourenço às 16:36
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Tags precisam-se...

O Público/Lusa actualizaram a notícia do post anterior. Curioso que, essencialmente, se substituíram apenas as partes onde se fazia menção à evolução positiva de alguns indicadores que se vem verificando desde há alguns anos, e a parte onde se lia

 

"Em Março deste ano, o ME divulgou os números relativos ao ano lectivo anterior, que também já representavam uma evolução positiva. Na altura, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues considerou "notável" a diminuição deste indicador, atribuindo-a a medidas como o plano de acção para a Matemática e o Plano Nacional de Leitura."

 

por

 

"em declarações ao Correio da Manhã a ministra da Educação considerou que os novos dados “traduzem anos de intensa dedicação de todos, nem sempre nas melhores condições, em que cada um deu o melhor de si.”

publicado por Carlos Lourenço às 13:11
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Chumbada

 

Sobre a notícia da Agência Lusa publicada hoje no Público com o título “Chumbos no básico e secundário atingiram este ano o valor mais baixo da última década”:
 
1.       Tudo corria bem com a distinção entre taxas e pontos percentuais, até que lá apareceu a habitual confusão, ao referir-se que no 9º ano se registou a maior queda na taxa de chumbos -- uma queda de 7,5%. O que o(a) jornalista queria dizer era uma queda de 7,5 pontos percentuais.
 
2.       A notícia não indica se os dados se referem apenas a Portugal continental ou se inclui as ilhas. Apenas após uma pesquisa pela informação disponível no website oficial do Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação (GEPE) do Ministério da Educação se conclui que estes se referem, provavelmente, ao continente e ilhas. Isto porque, a referirem-se apenas ao continente, as variações, em pontos percentuais, descritas no texto estão todas erradas.
 
3.       No texto, lê-se apenas sobre a taxa de chumbos. Ora, uma diminuição da taxa de chumbos de um ano para o outro não implica necessariamente uma diminuição do número de chumbos, mas apenas uma diminuição do número de chumbos em relação ao número de inscritos.
 
a.       Se o número de chumbos se mantiver constante e o número de inscritos aumentar, a taxa de chumbos diminui. Mais, a taxa de chumbos pode até diminuir com o número de chumbos a aumentar, bastando que um aumento do número de inscritos seja superior a um aumento do número de chumbos.
 
b.       De facto, extraindo informação do website do GEPE é possível verificar, por exemplo, que em Portugal (continente e ilhas) o número de inscritos no total do Secundário aumentou no ano lectivo 2006/07. Curiosamente, ainda não existe qualquer informação relativa ao número de inscritos no ano lectivo 2007/08, um ano após o início do mesmo.
 
c.        No entanto, no Portal do Governo é possível encontrar uma nota do Ministério da Educação que refere que “neste ano lectivo [2007/08] estão matriculados no ensino secundário 282 188 jovens, mais dois por cento que no lectivo anterior [2006/07]”.
 
4.       Mas então fica a questão: como se explica a discrepância dos valores, especialmente quando é possível calculá-los de diferentes formas? É que aquele número no Portal do Governo não bate certo, em diversos milhares, com nenhum dos números do relatório que é possível retirar do site do GEPE. Isto é importante porque tem efeitos no cálculo da taxa de chumbos (ou de qualquer outra taxa).
 
5.       Relativamente à polémica sobre os exames do 9º ano deste ano e à referência, na notícia em causa, ao Ministério da Educação e à Ministra (“Em Março deste ano, o ME divulgou os números relativos ao ano lectivo anterior, que também já representavam uma evolução positiva. Na altura, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues considerou "notável" a diminuição deste indicador, atribuindo-a a medidas como o plano de acção para a Matemática e o Plano Nacional de Leitura”):
 
a.       A classificação de um aluno no 9º ano é feita de 1 a 5, em que se arredonda qualquer classificação final para a unidade mais próxima. Os exames, esses, valem 30%. Ou seja, um aluno que tenha 3 no final do 3º período, só reprova se obtiver 1 como classificação no exame e um aluno com 2 no final do 3º período, transita se obtiver um 4 no exame.
 
b.       Segundo noticiava o Público em Julho último, “a percentagem de notas de nível 5 (a mais alta) subiu de 1,4 por cento para 8,3 por cento. As classificações equivalentes a Bom (nível 4) dispararam de oito por cento para 21,4. (...) A classificação mais baixa de todas (nível 1), por exemplo, foi atribuída a apenas 3,3 por cento. Em 2007, foram 25 por cento a ter esta nota.”
 
c.        Comparar taxas, sejam elas de reprovação ou de outra coisa qualquer, só faz sentido se for possível comparar níveis de dificuldade das provas. E a melhor forma de averiguar a dificuldade das provas é, provavelmente, perguntando aos alunos, ou pedindo-lhes que realizem uma prova de um ano anterior. Nem precisa de ser a todos, basta uma amostra representativa. A este respeito ver, por exemplo, este artigo no Daily News.
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publicado por Carlos Lourenço às 13:03
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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Postas taberneiras

Lemos a capa do DN de hoje e parece que estamos a ouvir o Sr. Júlio da taberna a resmungar: "O pior Agosto de sempre no turismo português". No título interior, desaparece o "português". E quando acabamos de ler o texto, percebemos que afinal era basicamente só ao Algarve que se referiam, com um remate final do género "ah e tal, e no resto do país a situação foi semelhante", para aligeirar a coisa. Mas, adiante, que nem são as considerações geográficas que me fazem escrever.

Por uma simples questão de rigor, há palavras que deviam ser excluídas do léxico jornalístico. Uma delas é a palavra "sempre". Porque "sempre" é, por definição, um conceito temporalmente indefinido, o que não combina bem com rigor. O que é que a Leonor Matias quer dizer com "sempre"? Desde o ano passado? Nos últimos dez anos? Desde o 25 de Abril 1974? Desde 1143? No texto, apenas se diz que "ocupação hoteleira (...) baixou face face a igual mês de 2007". Ah, talvez o "sempre" signifique "desde o ano passado"...

E o "pior", já agora, refere-se a quê? Número de turistas mais baixo de sempre? Será a "ocupação hoteleira" mais baixa de sempre? (E o que raio é isto? Será taxa de ocupação hoteleira? Será número de turistas que ocupam as instalações hoteleiras?) Ou será antes o volume de negócios mais baixo de sempre? Não sabemos...

O que sabemos é que, no Algarve, e comparando com Agosto de 2007, a "ocupação hoteleira" (seja lá o que isto for) desceu 3%. E dizem-nos também que foi a primeira queda desde... não dizem quando, mas imagino que seja "sempre". E ficamos ainda a saber que o volume de negócios caiu 2% em comparação com... ops, também não dizem, se calhar com o mês anterior.

Mas, olhemos bem para os 2 e 3% de que nos falam e façamos um esforço para perceber se este pode ter sido o "pior" ano de "sempre", tendo em conta, já agora, que se trata da "primeira queda". Até podemos definir "sempre" como "nos últimos vinte anos", para não batermos mais no ceguinho. Já terão percebido que para este ano ser "pior" que o ano de 1988, a taxa média de crescimento anual da ocupação hoteleira (ou do volume de negócios, ou do que quer que seja) teria de andar à volta de 0.16%, no máximo! Agora imaginem para onde descerá esta taxa se alargarmos a definição de "sempre" para os últimos trinta anos. E, por fim, imaginem como seria o Algarve se isto fosse verdade.

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publicado por Pedro Bom às 12:37
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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

Furacões e petróleo

Tem circulado por aí uma explicação assaz disparatada para a quebra do preço do petróleo (em dólares) dos últimos dias. Vinha ontem na capa do Diário de Notícias (embora não tenha lido o interior), vinha hoje no Público, e aparece também no Diário Económico. E diz tão-só que a razão para a queda do preço do petróleo nos mercados internacionais tem estado no facto de o furacão Gustav estar a fazer menos mossa do que o esperado. Como se a fraqueza do furacão aumentasse as reservas de petróleo...

Imagino que o raciocínio seja do seguinte género: "se o furacão for forte, o petróleo fica mais caro; como o furacão é fraco, o petróleo fica mais barato". Claro que se o Gustav teve algum efeito, só pode ter sido no sentido da subida. É possível, e bastante provável, que o facto de a devastação ter sido abaixo do esperado tenha parcialmente atenuado uma também provável pressão ascendente no preço do petróleo. Agora, não me venham é dizer que está, só por si, a fazer o preço descer. Aliás, no limite, onde é que estaria o preço do barril se o furacão afinal não passasse de uma mentira? Nos 20 dólares? E, já agora, porque não fazer bluff em furacões (que esses então não estragam mesmo nada) só para ter gasolina mais barata?

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publicado por Pedro Bom às 22:48
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