... ou melhor uma capa à Rudolfo Rebêlo. Se o Carlos me permite, tenho algumas coisas a acrescentar sobre a notícia que suporta a capa do DN, sobre a qual ele escreveu este post.
1. Ao estilo conversa de café temos a frase "com dificuldades em poupar e fazer compras, o "estado de alma" dos consumidores está no ponto mais baixo desde 2003". Eu não sei onde se foi buscar esta relação causa-efeito (que não vem do INE), mas é curioso citar, bem a propósito, a seguinte frase do relatório de ontem do INE "as opiniões sobre a poupança no momento actual recuperaram nos últimos três meses".
2. "Para os próximos três meses, a intenção de proceder a novas encomendas nunca esteve tão em baixa como actualmente, apesar da quadra tradicionalmente consumista, com o Natal e o 13.º mês (subsídio) a ajudar à facturação de vendas", diz-nos o Rudolfo. Ora, ele baseia-se na seguinte pergunta feita aos consumidores comerciantes*: "excluindo os movimentos de carácter sazonal, pensa que o volume de encomendas aos fornecedores nos próximos três meses" irá aumentar / manter-se / diminuir?
3. "De quem é a culpa deste clima tão deteriorado? Da procura, respondem os comerciantes no inquérito. Em relação à actividade, os lojistas fazem uma apreciação negativa dos últimos três meses e elegem como principal obstáculo à actividade - leia-se vendas - a anemia do consumo. Os inquéritos aos consumidores confirmam o pessimismo demonstrado pelo comércio."
Traduzindo para português: porque é que o comércio está mal? Porque não se vende. E porque é que não há vendas? Porque não há consumo. La Palice não diria melhor.
4."Em relação à actividade, os lojistas fazem uma apreciação negativa dos últimos três meses e elegem como principal obstáculo à actividade - leia-se vendas - a anemia do consumo. Os inquéritos aos consumidores confirmam o pessimismo demonstrado pelo comércio. Este cenário de repressão nas despesas das famílias é confirmado por outras fontes. Já o INE, na sua folha de conjuntura de Outubro, tinha referido o pessimismo dos lojistas". Curioso o Rudolfo não se referir ao indicador que mede as despesas das famílias, quando está a falar das despesas das famílias, indo buscar o pessimismo dos lojistas. Talvez seja porque no relatório de semana passada, onde saiu a última estimativa da evolução do consumo das famílias, se possa ler que "ao nível da procura interna, o consumo privado acelerou no 3º trimestre".
5. "...as encomendas aos seus fornecedores (grossistas) - também eles a revelarem pessimismo para os próximos tempos - estão em queda, atingindo o ponto mais baixo de sempre". Cá temos o erro habitual do Rudolfo, confundindo nível com variação - além de confundir expectativas para o futuro (no inquérito) com observações (ponto mais baixo das encomendas no texto). Mais uma vez, o INE pergunta como se pensa que vão variar as encomendas nos próximos meses. A variação prevista é a mais baixa de "sempre" (2003, na realidade...), mas isso não implica de modo nenhum que as encomendas sejam as mais baixas de sempre. Pode esperar-se um aquecimento enorme para amanhã, o que não faz do dia de amanhã o dia mais quente de sempre.
*(corrigido após uma chamada de atenção de um leitor)
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