Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Previsões e Realidade

José Sócrates dizia há pouco que o seu governo tinha reduzido o défice de 6,8% para 2,?%. Só que estes 6,8% eram uma projecção para o futuro! Ou seja não só não são números reais, como nunca poderiam corresponder ao défice que "recebeu", porque era uma projecção para Dezembro de 2005 (no cenário de nada ser feito para contrariar este défice) e o governo entrou em funções em Março de 2005!
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publicado por Miguel Carvalho às 14:44
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País sujeito a palermices do Público

Também na edição de 25 de Abril, temos um artigo duvidoso sob o título "País sujeito à escalada de preços. Consumo per capita tem caído em Portugal".

1. O texto nunca o faz explicitamente, mas o título associa o aumento de preços com a queda do consumo. Não há contudo uma única indicação da veracidade desta causalidade. O que não faltam são exemplos de produtos cujo consumo sobe/desde, quando o seu preço sobe/desce. Mais curioso é que é dado a entender que a subida de preços é algo recente, mas quando se fala em queda de consumo fala-se numa tendência da última década!

2. Para justificar a afirmação acerca da tendência da queda do consumo, é apenas dado um facto: o consumo em 2006 foi o mais baixo desde 1997. Ora isto não mostra tendência nenhuma.
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publicado por Miguel Carvalho às 11:13
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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Parabéns pelo esforço mas as conclusões não tem qualquer base sólida

"Os mais pobres sofrem mais com a inflação." diz a capa do Público de hoje em letras gordas. Ainda na capa "As famílias portuguesas com rendimentos mais baixos são as que mais estão a sentir os efeitos da inflação, conclui um relatório do INE."

Lá dentro temos a bela e elucidativa frase "Cálculos feitos pelo PÚBLICO...".  Aah! Ficamos a saber que o próprio jornalista parece reconhecer que a credibilidade do Público anda pelas ruas da amargura, ao ponto de necessitar de mentir quanto à origem do estudo na capa, para que alguém dê alguma credibilidade ao que escreve. O facto de os dados usados serem baseados num relatório do INE, não dá o direito ao Público de dizer que as conclusões são do INE. Para lá desta mentira, há ainda a questão de saber se o INE teria tantas certezas como o Público parece ter.

Antes de mais um fenómeno paranormal nos resultados do Sérgio Aníbal, que lhe deveria ter saltado à vista. TODAS as classes de rendimento sofreram, segundo ele, inflações iguais ou acima da inflação! Ou seja teremos a média (feita sobre os rendimentos) acima da média. Algo com a média de 10, 9, 8, 7, 6 e 5 ser... 5! O que já mostra que as suas contas estão certamente erradas*.

Apesar de ter que reconhecer que o Sérgio Aníbal se deu ao trabalho de fazer algo que provavelmente poucos fariam, não se pode tirar as conclusões que ele tira. Mais uma vez e bem, ele próprio reconhece isso dizendo "a análise feita pelo PÚBLICO não leva em conta esse nível de desagregação da despesa familiar..."  mas logo a seguir estraga tudo mostrando bem o seu facciosismo, quando diz  "ainda poderia acentuar as disparidades do impacto da inflação sobre os diferentes tipos de famílias". Dou-lhe razão, mas não há razão nenhuma para acreditar que seja para cima ou para baixo. Porque será que não escreveu o oposto, que poderia diminuir e até inverter as disparidades do impacto da inflação? Não dava jeito. Como exemplo posso indicar os legumes que desceram 15%, o que mostra o quão difícil é tirar o tipo de conclusões que o Sérgio quer tirar, com os poucos dados disponíveis que existem.

Outro aspecto que mostra o quão forçadas são as suas conclusões, é o  facto de ele chegar ao valor de 3,1% de inflação para as famílias ricas e 3,6% para as pobres. A diferença é ridiculamente baixa e insignificante dados os problemas de agregação. Mais, esta pequeníssima diferença que foi medida em Março (0.5 pp) pode pura e simplesmente inverter-se em Abril, já que a inflação dentro de cada classe de produtos é altamente volátil (com variações de mais de 1pp de mês para mês em termos anuais).

Por último, e esta crítica estende-se a TODOS os jornalistas, que dizem que os "bens essenciais" têm subido acima da inflação. É preciso ter muito cuidado com o nível de agregação. Primeiro - e como já disse - termos alimentação a subir, pode dever-se aos caviares e às patas negras, logo é complicado chamar "bem essencial" à classe alimentação. Segundo, a este nível grande parte das classes são bens essenciais!! Descontando 5 das 12 classes, temos Alimentação, Vestuário, Habitação, Produtos correntes para a Habitação, Saúde, Transportes, Educação, que julgo serem todos "bens essenciais". Pois bem, três delas estão abaixo da inflação. É sempre fácil pegar na que subiu mais destas sete (estatisticamente haverá uma acima da inflação, em 99,99999% dos casos)  e em tom sensacionalista clamar bem alto que os "bens essenciais" sobem acima da inflação.

*Entretanto percebi de onde vem este erro. O Sérgio mistura cabazes do Inquérito às famílias com os do IPC. Ou seja para calcular quanto é que uma família rica gasta em alimentação usa o primeiro estudo, mas para calcular quanto é que família paga agora a mais pela alimentação usa o segundo estudo. Como os cabazes não coincidem, a média do primeiro não coincide com a do segundo. Mais uma razão, para não dar qualquer credibilidade a isto...
publicado por Miguel Carvalho às 11:16
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Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Tantos erros na capa, imagine-se o que vai lá por dentro

Não posso deixar de notar a quantidade de vezes que eu escrevo posts sobre a principal notícia do dia nos jornais. Neste caso escrevo apenas sobre o título da primeira notícia da primeira página, uma migalha no jornal. Porque o faço é óbvio: é a notícia que mais chama a atenção, logo aquela que leio com mais cuidado, logo aquela onde mais vez apanho erros. Uma pergunta impõe-se então: será que a "qualidade" vai melhorando lá para dentro?

Hoje em letras gordas na capa do Público: "Há cada vez mais divorciados e viúvos a casar-se pela segunda vez em Portugal". Para sustentar tal tese é apenas referido que "A percentagem de casamentos em que pelo menos um dos envolvidos já tinha sido casado anteriormente duplicou entre 1990 e 2006 - de 10,5 por cento passou para 20,6 por cento (uma em cada cinco) do total de uniões celebradas". Versão online aqui.

1. Este dado não sustenta a afirmação em letras gordas na primeira página porque o número total de uniões celebradas caiu fortemente nesse período, logo um aumento de 10% para 20% do total nem sequer implica que o número absoluto desse tipo de casamentos tenha aumentado. (Por acaso o número total não caiu assim tanto, mas Bárbara Simões não o verifica).

2. Mesmo com um número absoluto deste tipo de casamento a aumentar, este dado não sustenta a afirmação em letras gordas na primeira página, porque número de casamentos não implica número de pessoas casadas. Em 1990 se todos os já-anteriormente-casados casassem com outros já-anteriormente-casados mas em 2006 todos o já-anteriormente-casados casassem com solteiros, teríamos uma duplicação deste tipo de casamentos mesmo para o mesmo número de já-anteriormente casados.

3. Mesmo com um número absoluto deste tipo de casamento a aumentar, e mesmo com a composição do casal a ser constante nos casamentos, este dado pode ser irrelevante porque o número de divorciados e viúvos pode estar a aumentar (o primeiro está de certeza, não verifiquei o segundo). Assim se o número de divorciados duplica e o número de divorciados a casar duplica também, não estamos aqui perante uma alteração em termos de comportamento de recasamento!

4. Não me dei ao trabalho de fazer o trabalho que a Bárbara Simões deveria ter feito, apenas li a conclusão do referido estudo publicado pelo INE, onde se afirma que "as taxas de recasamento de viúvos e divorciados tendem a diminuir tanto em Portugal...". Bolas! Exactamente o contrário do que dá a entender o título.

Estes erros são irrelevantes? Claro que são! Estamos a falar de recasamento de divorciados! Agora se pensarmos que o mesmo tipo de erros acontece em temas bem mais "quentes"...
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publicado por Miguel Carvalho às 09:58
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Sábado, 12 de Abril de 2008

Nascimentos negativos?

Numa reportagem sobre Espanha esta manhã na SIC Notícias, dizia-se que a Espanha tinha uma "taxa de natalidade negativa".
Quando oiço estas coisas fico sempre na dúvida, será que são erros muito estúpidos ou os jornalistas não fazem a mínima ideia do que estão a falar?
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publicado por Miguel Carvalho às 20:16
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Segunda-feira, 10 de Março de 2008

A ânsia das más notícias IV

Acaba de sair uma nota do INE sobre o comércio externo português. De 2006 para 2007 as exportações para a UE subiram mais que as importações, as exportações extra-comunitárias também subiram mais que as importações, e por conseguinte a taxa de cobertura (percentagem do que compramos que é "compensado" por vendas nossas, ou seja exportações/importações*100) também subiu.

Tudo boas notícias, mas o que é o Diário Digital escreve?
Título: Défice comercial português agravou-se 4,12% em 2007
Parágrafo em destaque:O défice comercial português ascendeu a 19.356,2 milhões de euros no ano passado, um agravamento de 4,12% face a 2006, informa esta segunda-feira o Instituto Nacional de Estatística (INE).

A informação está correcta, é possível a taxa de cobertura melhorar e o saldo piorar, mas quando isso acontece devemos dar atenção à primeira, não ao segundo. Isto por uma razão muito simples, a variação da primeira diz-nos se estamos numa trajectória sustentável (se caminhamos para a bancarrota ou não), mas a segunda não dá informação nenhuma.
E não se julgue que sou apenas eu. Nem se julgue que o jornalista fez copy-paste sem pensar mais no assunto. O próprio comunicado da INE destaca a variação da taxa de cobertura na primeira página, e nunca refere a variação do saldo ao longo de oito páginas! Foi o próprio jornalista que depois de ler o texto do INE, se deu ao trabalho de ir caçar um mau resultado aos quadros e foi calcular aqueles 4,12%.
Dito de outro modo, se aqueles 4,12% são tão significativos como o jornalista nos quer fazer crer, porque é que eles nem constam do comunicado de oito páginas?
publicado por Miguel Carvalho às 12:08
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Quarta-feira, 5 de Março de 2008

Ontem nevou em Portugal mas não na Islândia, o que contraria a ideia de que a Islândia é mais fria

Como o Óscar antevia aqui, esta "onda de crimes" levou a uma "onda de disparates" por parte dos jornalistas, políticos e afins. A capa do DN de hoje referente a um texto de Ana Mafalda Inácio e Tiago Melo, apesar de tentar pôr alguma água na fervura, é disso um exemplo:
"Onda de homicídios contraria queda de 30% no ano passado"

1. É um absurdo chamar onda de homicídios a actos isolados e independentes, pura e simplesmente porque aconteceram todos em períodos curtos. Segundo a notícia nos últimos três anos o número de homicídios foi de 133,194 e 135, o que é baixo em termos europeus. Fazendo uma pequena simulação onde assumo que a criminalidade é constante ao longo dos anos, conclui-se que em 71% dos anos há períodos de pelo menos 5 dias consecutivos com homicídios, e em 36% dos anos períodos com pelo menos 6 dias consecutivos com homicídios. Ou seja estes picos são mais que banais, não fazendo sentido chamar-lhe "onda".

2. Sendo altamente prováveis, não contrariam absolutamente nada, como o título faz crer, porque não indicam de modo nenhum um aumento do nível de crime. Mais, é também altamente provável que um ano tenha mais dias com homicídios consecutivos do que outro ano, e mesmo assim ser mais seguro (ter muito menos homicídios ao fim do ano).

3. A queda de 30% nem sequer pode ser "contrariada" porque o número de homicídios não é decretado por lei, é sim um processo aleatório. Logo é normal que varie bastante de ano para ano (como os números o mostram), não fazendo por isso sentido atribuir alguma importância a estas variações anuais.

Nota da simulação: Processo de Poisson para cada dia do ano, de modo a que a média anual seja 154. Poisson supõe de facto independência quando na realidade há alguma correlação entre dias consecutivos (homicídios múltiplos ou viganças, por exemplo). Além de complicar as contas, incluir esta correlação só aumentaria ainda mais a probabilidade de haver "ondas de homícios".
publicado por Miguel Carvalho às 15:01
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Generalização abusiva ou os adivinhadores de dados

Apesar de só haver dados para pouco mais de metade dos países (15 dos 27), há vários media que hoje afirmam categoricamente que Portugal é o país da União Europeia onde se anda menos a pé, como a RTP.
Eu incentivo aqui os jornalistas portugueses a contactarem rapidamente a Agência Europeia do Ambiente, porque aparentemente eles têm mais dados do que os próprios autores do estudo.
publicado por Miguel Carvalho às 10:23
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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Abrandar

É impressionante como abrandar pode significar tudo o que apetece aos jornalistas. Pela sua interpretação negativa tenho alguma dificuldade em entender o seu uso em casos de melhorias mais lentas, como já aqui escrevi, mas enfim não está errado. Mas o caso de hoje do Público é novidade para mim.
Há uma melhoria mais rápida na variação homóloga anual dos dados trimestrais do desemprego, e o que é o Público lhe chama? Abrandamento!
No último trimestre do ano passado, a taxa de desemprego demonstrou uma forte tendência de abrandamento, caindo quatro décimas em relação aos valores homólogos de 2006, para 7,8 por cento.

Nota: Isto não contradiz o título pessimista da mesma notícia que está correctíssimo, que diz que o desemprego subiu, porque refere-se aos valores anuais e não aos trimestrais. E como sempre não devemos dar demasiada importância a valores referentes a períodos curtos quando há muita oscilação. Neste caso a descida de 0,4pp vem após uma subida de 0,5pp.

Nota 2: Não me perguntem o que é que "abrandar" significa matematicamente, porque de facto a palavra presta-se a várias interpretações. A minha sugestão era simplesmente não usá-la exactamente por esta incerteza. Agora neste caso específico o que eu (e um amigo que por acaso até é economista do trabalho) tiro da frase é que o desemprego não se agravou tanto, e não foi isso que aconteceu.
publicado por Miguel Carvalho às 14:30
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Escrito à pressa

No DD:
A primeira estimativa para o Produto Interno Bruto da Zona Euro (medido em volume) aponta para um aumento anualizado de 0,4% (+0,8% no terceiro trimestre), enquanto Portugal registou variação de 0,7% (-0,1%).
Na fonte da notícia, logo na primeira frase:
GDP grew by 0.4% in the euro area (EA13) (...) during the fourth quarter of 2007, compared with the previous quarter.
Ou seja é crescimento trimestral não-anualizado.

Um erro menor, mas mais um exemplo de jornalismo às três pancadas.

P.S. Só me chamou a atenção, porque um crescimento de 0,4% a ser anualizado, seria uma péssima notícia para a economia europeia. Em comparação com o mesmo trimestre do ano passado, o crescimento foi de 2,4%.
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publicado por Miguel Carvalho às 14:08
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